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Cinéfilos

O TALISMÃ

19/06/06



Stephen King é, sem nenhuma dúvida, um de meus cinco autores preferidos. Responsável por algumas das maiores obras primas de suspense e horror do século XX, como “A Coisa”, “Cemitério Maldito”, “Christine”, “Tommynockers” entre outros, King se une ao grande Peter Straub (autor dos suspenses “Mau Olhado” e “Os Mortos Vivos”) para a criação de mais uma obra prima, o genial “Talismã” .

No livro, Jack Sawyer é um garoto de doze anos, órfão de pai e criado pela doente mãe, ex-atriz de cinema. Jack e sua mãe vivem viajando de hotel em hotel no leste, fugindo do indesejável e augorento ex-sócio de seu pai, Morgan Soloat, que quer a todo custo a custódia de Jack após o falecimento de sua mãe, para assim tornar-se dono de seu patrimônio. A vida do protagonista muda completamente, quando ao chegar a uma pequena cidade costeira dos E.U.A., encontra o bondoso Speedy Parker, que o chama de Jack viajante e o faz retomar antigas lembranças a muito esquecidas, incluindo a existência de todo um novo universo, visitado por Jack em suas brincadeiras de infância e até então conhecida por ele como o local onde ocorre “os sonhos de olhos abertos” .

Infelizmente para Jack, a descoberta de que esse local é real e chama-se de Territórios, e que inclusive era visitado por seu falecido pai, vem junto com uma perigosa missão, a de salvar os Territórios de terríveis forças, através da busca de um misterioso Talismã. A posse do Talismã, além de salvar esse novo mundo, pode dar a Jack a possibilidade de salvar sua mãe do câncer que corrói sua mãe.

Stephen King é mestre na criação de personagens, sempre dando-os uma grande complexidade, tornando-os seres reais, aproximando-os ainda mais dos leitores que sentem todo o pavor, dor, fúria, surpresas e triunfos, como se fossemos nós os protagonistas de seus livros. É impossível ler alguma obra de King e não se identificar com algum de seus personagens.

Prepare-se então, para viajar com Jack Sawyer e enfrentar grandes aventuras através dos Estados Unidos e dos Territórios, em uma grande jornada em direção ao extremos Oeste, enfrentando o que há de pior e melhor em relação à natureza humana de habitantes dos dois mundos.

Leitura altamente recomendada.

Serviços: KING, Stephen e STRAUB, Peter. O Talismã. Editora Planeta. 2005.

JOÃO UBALDO RIBEIRO

12/06/06

VIVA O POVO BRASILEIRO

Não posso fazer uma simples resenha deste livro. Não dá pra resumir o livro. Não da para explicar totalmente o livro. João Ubaldo Ribeiro fez com que eu praticamente chorasse em vários momentos do livro. Um livro que conta realmente como eram tratados os negros no nosso Brasil. Conta como os nobres aqui viviam. O livro narra paralelamente a história da família do Barão de Pirapuama que por sua vez mistura-se com os Ferreira-Dutton de Amleto Henrique. Não temos personagens principais, temos uns mais marcantes que outros. Uns fazem-nos chorar, outros pensar, outros fazem-nos rir.
Mostra como Maria Dafé quis melhorar a vida do povo. Ela acordou para seu povo, quando teve sua mãe morta, com mais de vinte punhaladas, na sua frente. A Irmandade de qual ela pertencia e muitos outros sofridos brasileiros pertenciam sem saber que pertenciam, diziam que fora criada por três negros numa casa de farinha na ilha de Itaparica.
A decadência de um país é totalmente descrita e ridicularizada no livro. Homens, como Bonifácio Odulfo, que achavam que caixeiros, açougueiros, sapateiros, ferreiros, e muitos outros profissionais que exerciam seu trabalho para viver, não poderiam ser chamados de povo, era repudiado pelo próprio irmão Patrício Macário; um deserdado de sua família que fora para o Exército para tomar jeito, também resolve ver o mundo de outra forma, após conhecer Maria Dafé; dizendo que ele e sua corja é que eram estrangeiros europeus, que cá não viviam, que tinham vergonha de falar até a própria língua, estes sim, não eram o povo brasileiro.
Não há como poder falar sobre a grandiloqüência de João Ubaldo neste livro. Creio realmente ser o melhor entre todos os seus livros lidos por mim; e que inúmeras pessoas também o acham. Ele retrata a cara do povo. Retrata o Espírito do Homem, de onde viemos, como viemos e porque vivemos da forma que vivemos. Sempre existirá explorados e exploradores, mas se o povo brasileiro não se unir não haverá formas de combater o mal.
Em uma determinada canastra eram guardados todos os segredos do nosso povo pela Irmandade. Sempre as maiores figuras combatentes para a vida digna de nosso povo foram responsáveis por tal. Tanto é que depois de muitos séculos tendo se passado, e muitas coisas terem sido guardadas, a canastra eis que nos mostra o futuro perante três ladrões, que vieram roubá-la no dia em que Patrício Macário morre, e não conseguem agüentar olhar dentro da canastra por muito tempo, porque nela é guardada o futuro. Nela pode se ver crianças morrendo, estrangeiro mandando aqui, guerras, e vêem, imaginem só, uma corrupção indestrutível que aqui ocorre desde que por aqui chegaram os portugueses. Os ladrões deste futuro, piores que os três, andam de gravata de seda, alfinetes de brilhantes, abotoaduras de pérolas e outras coisas que aumentam seu porte fino.
A casa de farinha se definha sendo comida pela terra. Que não suportou ver tanta miséria prevista pela canastra. O futuro mesquinho estava traçado, e cá estamos nós vivendo ele. E como diria Maria Dafé, Julio Dandão, Negro Budião, Zé Popó, Patrício Macário e muitos outros levantando o braço com punho fechado:
Viva o povo brasileiro!

Serviços: Ribeiro, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro: romance / Rio de janeiro: Nova Fronteira,1a ed., 1984.


DIÁRIO DO FAROL

“Quando a falsidade deixar o mundo, ele sobrará somente para poucos, mas sobreviverá esplendidamenet, o homem é o câncer na Terra.”

Define-se assim o ser humano para o faroleiro que vive isolado em uma ilha, cuidando apenas do seu farol.

João Ubaldo Ribeiro é conhecido por ser um autor que tem senso de humor um pouco elevado, como nos livros Livros de Histórias, Sempre aos Domingos, o próprio romance Sargento Getúlio é hilário.

Mas desta vez João se superou. Escreveu um livro no qual, muitas pessoas achariam que não poderia vir de sua magnitude.

O homem no qual se define somente falar a verdade neste livro, diz que tem vergonha de ser, um ser humano. Pois para ele não passamos de meros idiotas. Para o faroleiro, não existe Bem e Mal. Os dois são uma coisa só. Não podemos distinguir o que é o bom ou o ruim.

Este ser diz que somos todos iguais. Ele não nos prova, mas faz vermos que somos todos iguais. Porque? Porque todos nós gostamos das maldades do mundo. Todos nós já praticamos alguma coisa maléfica para alguém. Ele acha que nós escondemos a verdadeira personalidade, que seria possuir o mal dentro de si já enraizado, com raízes tão profundas que nunca poderíamos libertar-nos delas.

Por um segundo eu acreditei no que ele nos diz em sua narrativa. Acreditei tanto que até agora estou na dúvida se realmente não somos mesmo o que ele diz sermos.

Diga –me. Qual o ser humano que não para na frente da tevê para ver uma catástrofe? Qual ser não para na frente de um quadro que mostra uma pessoa sendo queimada como nas inquisições? Qual ser que nunca quis ver outro da sua mesma espécie, ali morto à sua frente? Quem não quis é porque ainda não teve oportunidade de pensar no assunto.

O que este homem quer nos mostrar, é como a sociedade abraça as maldades, digamos assim, desse mundo. Onde uma criança criada por um pai que não o tinha como filho, cresce inflando seu ódio dentro do peito para mais tarde vir ter a vingança esperada. Onde um amor perdido pode fazer com que ele busque o poder, para destruir aquele amor que não pode ter para ele. Onde um adolescente vivendo em seminários vive tudo que se passa por detrás das cortinas, para se tornar um padre. Este ser viveu até o momento para destruir todos que quisessem opor-se a ele.

A vingança é algo que está dentro de cada um de nós. Se não quiseres crer nisto, não creia.

Mas pode ter certeza, que você também faz parte desta sociedade.

Editora: Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2002, 302p.

O CÃO DOS BASKERVILLES

6/06/06




Por vezes podemos comparar alguns livros com bons vinhos guardados na cantina, ficam lá quietinhos só esperando o momento certo de serem apreciados. O livro “O Cão dos Baskervilles” de Conan Doyle estava entre outros tantos que eu já tenho há algum tempo e ainda não tinha lido. Isso se explica pelo fato de que, até algum tempo atrás, eu tenha tido o hábito de comprar mais livros do que conseguia ler, aí, naturalmente, muitos ficavam aguardando na fila por tempo indeterminado. Após passar em revista minhas estantes, fiquei impressionado com a quantidade de livros não lidos, os separei e tento incluí-los em minhas listas de leituras. Apesar de ser fã de Agatha Christie, ainda não tinha lido nenhum livro de Conan Doyle e o que me instigou a ler “O Cão dos Baskervilles” foi uma resenha que li no site “Literatura Fantástica” intitulada “Genial, meu caro leitor”. Gostei muito do livro que, narrado pelo Dr. Watson, é muito gostoso de ler e muito interessante, tanto que o li de um dia pra outro. Após ler o livro dá pra entender bem por que Sherlock Holmes faz tanto sucesso pelo mundo afora, realmente ele cativa a gente logo de início e dá vontade de ler outras narrativas em que o detetive esteja presente. É interessante também que parece haver uma analogia entre o personagem Sherlock Holmes e Auguste Dupin (presente nos contos de Edgar Allan Poe: “A Carta Roubada” e “Os Crimes da Rua Morgue”) e o clima opressor da mansão dos Baskervilles lembra muito a casa de Husher (do conto de Edgar Allan Poe “A Queda da Casa de Usher”). Provavelmente Conan Doyle tenha se inspirado em Edgar Allan Poe na criação de seu detetive e em alguns pontos de suas narrativas.

Também curto e recomendo os autores do gênero detetive/policial: Agatha Christie, George Simenon e Edgar Wallace. Relevante também a leitura de “Histórias Extraordinárias” de Edgar Allan Poe.

DOYLE, Arthur Conan – The Hound of The Baskervilles – O Cão dos Baskervilles – Tradução Ligia Junqueira - Editora Ediouro – 182 páginas.

Resenhado por Nilson Luis Neumann
e-mail: nilson@superimec.com.br

O APRENDIZ DE MORTE

27/05/06




Discworld (Mundo do Disco) é o mágico mundo criado pelo ex-jornalista (Graças ao Cego Io) Terry Pratchett ainda na década de 80 e que hoje já possui uma série de mais de 25 títulos. O autor, mistura em sua obra, fantasia (dragões, magos, bruxas, ogros etc), com o melhor e mais refinado humor negro inglês, bem semelhante ao realizado por Douglas Adams no “Guia do Nochileiro das Galáxias” e do grupo Monty Phyton.
No quarto livro da série, intitulado no Brasil de “O Aprendiz de Morte”, Pratchett dedica o livro a um de seus mais geniais (e sempre presente em todos os livros) personagens, o próprio MORTE, que aqui busca um aprendiz para aliviar o extress de ser aquele que todos sabem que vão encontrar, mas mesmo assim nunca o esperam e sempre fingem surpresa em sua chegada. Mortimer, mesmo sendo um jovem desajeitado e pouco inteligente, morador de uma pequena vila, seria esse aprendiz perfeito.
Inicia-se então, uma das mais divertidas e hilárias histórias do disco, com direito a um golpe de estado estranhamente mal sucedido, alteração na realidade espaço temporal, morto que teima em não morrer, a insatisfação do trabalhador mais eficiente de todos os tempos com seu trabalho, e claro o fim do mundo e um montão de mortes , já esperado em um livro protagonizado pelo “cara que surgiu no universo antes do surgimento da própria Grande A’Tuin (imensa tartaruga que viaja pelo universo com 4 elefantes em cima do seu casco, que por sua vez carregam o Discworld em suas costas) e que só irá embora, segunda um metáfora de sua própria autoria, “depois da saída do último freguês e de colocar as cadeiras em cima das mesas e varrer o estabelecimento”.

Serviços: PRATCHETT, Terry. O Aprendiz de Mort “Mort”. [Tradução: Roberto DeNice]. São Paulo, 2002. Editora Conrad.

O CÓDIGO DA VINCI

19/05/06




O best seller do momento O Código Da Vinci nada tem de original. Além do amontoado de clichês holywoodianos em um romance policial, as especulações acerca da vida de Jesus Cristo, Maria Madalena e do que seja o Santo Graal já haviam sido discorridas pela pena de outros escritores que como Dan Brown, autor do livro, tiveram o único objetivo de lucrar.

A teoria de que o Cálice Sagrado é um símbolo do feminino para representar a vagina são de 1920 da inglesa Jessie Weston, e a que afirma o matrimônio entre Jesus e Madalena seguido de uma prole, estão presentes no livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, primeiro fenômeno pop sobre o tema, de 1983, dos autores ocultistas Michael Baigent e Henry Lincoln, que incluem também sociedades secretas como a Maçonaria e Rosa-cruz. Já na década de 1990 foi a vez de um certo Peter Berlinger lucrar com o seu best seller Os Filhos do Graal. Tendo isso em vista e por isso, O Código da Vinci aparenta ser muito mais uma cópia levemente alterada do assunto para os nossos dias do que uma intertextualidade com essas obras.

Um ponto capital que deve ser comentado são as citações de obras de arte do renascentista Leonardo Da Vinci para fincar a trama ao mesmo tempo que tenta ilustrar a obra, esse quesito não a qualifica como boa literatura, como nos faz crer algumas resenhas, isso demonstra unicamente bom conhecimento de arte por parte do autor, o que nem de longe o torna bom escritor. Outra questão importante a ser apontada é a total ausência de teor filosófico sobre a condição humana do fundador do cristianismo, marca presente em A Última Tentação de Cristo do escritor grego Nikos Kazantzakis, transformado em filme homônimo por Martin Scorcese e citado em certa passagem de O Código Da Vinci. O que há são meras especulações sobre a vida do Messias, sem apresentar bases científicas mais sólidas.

A leitura do romance só se sustenta devido a uma enxurrada de enigmas desvendados página a página numa junção de episódios seqüenciados, enfocando demasiadamente o enredo em detrimento de uma possível análise psicológica das personagens.

O amontoado de clichês se refere a uma cinematográfica intriga policial, uma “implacável” perseguição a dois suspeitos de assassinato: O professor de Havard Robert Langdon e a criptógrafa Sophie Neveu, neta do curador do Louvre Jacques Saunière assassinado no início da ficção, casal este que protagoniza a história e tenta a um só tempo desvendar um segredo milenar – guardado a sete chaves por sociedades secretas como os Templários e o Priorado de Sião e de conhecimento também do Vaticano que teme a sua revelação aos fiéis – e provar sua inocência. Da metade do livro adiante, porém bem antes do epílogo, é possível descobrir o tal segredo milenar, quem é o vilão que a distância manipula seus títeres e todos os outros “problemas” sugeridos ao longo da trama.

Quanto às personagens, quando não são inverossímeis – a exemplo do próprio enredo exageradamente conveniente – são bastante superficiais, cedendo lugar ao maniqueísmo. Vide os protagonistas, autênticos estereótipos: O intelectual desajeitado: Robert Langdon e a mocinha destemida que esconde um trauma: Sophie Neveu. O outro exemplo é o do secundário Bezu Fache, “capitão da diretoria central da polícia judiciária” francesa, sujeito durão e perfeccionista no melhor estilo Tommy Lee Jones no filme O Fugitivo.

Há ainda os antagonistas: o vilão cognominado “o mestre”, que só revela sua verdadeira identidade nos previsíveis momentos finais da história como sendo o também intelectual Sir Leigh Teabing, historiador da coroa britânica e demente obcecado pelo Graal, cujas ordens são obedecidas prontamente pelo fanático religioso Silas, que nas horas vagas se autoflagela e que não mede esforços na defesa dos interesses políticos de sua igreja. Assim os personagens, sem vontade própria, já que tudo conspira favorável aos bons e desfavoráveis às forças que se opõem a estes, ficam a mercê da trama, como se levados por ela a seu bel prazer. Trata-se na verdade de uma leitura de entretenimento direcionada a um público leitor iniciante e nada exigente, e atribuir maiores qualidades ao livro é superestimá-lo.

Em outras palavras O Código Da Vinci não passa de literatura pré-fabricada e vendida a um amplo mercado consumidor ávido por uma leitura fácil, vazia e efêmera. No caso de Dan Brown ele parece se utilizar de moldes muito semelhantes para tecer seus livros. O outro romance do autor, Anjos e Demônios, é também uma trama policial envolvendo sociedades secretas, Vaticano e Robert Langdon, já o seu próximo livro é sobre sociedades secretas, Washington e ao que tudo indica, Robert langdon.

Serviços: Brown, Dan. O Código Da Vinci. São Paulo: Sextante, 2005.

DICA: Quem se interessar em ler a crítica do filme no Blog NEM TODOS SÃO ARTE, é só clicar AQUI .