VÁRIOS MITOS EM UM SÓ UNIVERSO

24 de outubro de 2006



Na Literatura ocidental contemporânea, geralmente quando se fala em mitologia é referente ao paganismo da cultura greco-romana, e qualquer menção à religião diz respeito à crença cristã. Ambos fenômenos sociais são produtos de uma coletividade que, mesmo apresentando-se como dicotômicos, estão os dois historicamente ligados. O cristianismo nasceu e fortaleceu-se ante a supremacia dos deuses do Olimpo e foi o imperador romano Costantino quem concedeu liberdade religiosa aos cristãos, que por sua vez travestiram os deuses em santos. Imagine então uma mescla indiscriminada de mito e religião produzida não por um coletivo, mas por um único homem. Resultado: O Silmarillion.
J.R.R. Tolkien somou, no que alguns consideram sua obra-prima, não só o politeísmo clássico com o monoteísmo cristão, como também os mitos nórdicos e a crença judaica. O que é o ainunlindalë (um dos capítulos da obra) se não uma nova leitura do Gênesis em que “…Eru, o único…” é se não o Javé dos judeus; Melkor: o Lúcifer de Arda; e ainda o Middler Earth (Terra média), o Midgard dado por Odin aos homens. A origem do cosmos tolkeniano segue com a música dos ainur e o poder dos Valar apresentando-nos uma sensacional mistura de universos num só.
A origem dos elfos e suas vertentes na Terra média, o nascimento dos homens e o surgimento dos anões, bem como a criação dos anéis de poder que vão marcar boa parte da narrativa de O Hobbit e serem a mola propulsora da trilogia O Senhor dos Anéis, estão nas imperceptíveis 460 páginas de O Silmarillion.

Bibliografia:Tolkien, J.R.R.. O Silmarillion. Organizado por Christopher Tolkien; tradução Waldéia Barcellos. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

A IDENTIDADE BOURNE

28 de agosto de 2006


“Delta está para Caim e Caim está para Charlie”

Esse é um pensamento que constantemente perturba a mente do amnésico e perseguido personagem principal dessa obra prima da literatura de espionagem.
Um homem é resgatado semimorto das águas revoltas do mar em uma noite de forte tempestade, levado para uma pequena ilha, é tratado por um médico alcoólatra. Após acordar, descobre que os danos vão muito além do imaginado. O trauma o levou a um estado de completa amnésia, privando-o de todo o seu passado. Obcecado em descobrir quem é, esse homem sem nome e passado começa a juntar pequenos fragmentos, parte de um grande e complexo quebra cabeças que é sua vida. Aos poucos, esse atormentado homem avança em suas buscas, até chegar ao nome Jason Bourne. Acreditando que esse é seu nome, Bourne tem que prosseguir com suas investigações, tendo que entender os flashs de memórias completamente confusos que aumentam de intensidade a cada instante e principalmente, descobrir os motivos por estar sendo perseguido por pessoas até então supostamente desconhecidas. Então, Jason tem que, sobretudo, descobrir o porquê do seu interesse na figura do terrorista Carlos, o Chacal e que empresa é a Treadstone, ao qual provavelmente ele é funcionário e que colocou em uma conta no seu nome a absurda quantia de 5 milhões de dólares.
Robert Ludlum criou em “A Identidade Bourne”, um dos melhores e mais profundos personagens que eu já vi em livros do gênero. Jason Bourne é um homem artomentado por desconhecer seu passado e acreditar ser um perigoso assassino. Com medo de causar mal as pessoas que ele passa a gostar, como a jovem economista canadense pelo qual ele se apaixona, Marie. Jason Bourne é um homem que vive sempre no limite entre o descontrole e a razão, sempre obrigado a tomar perigosas decisões.
Matt Damon interpretou esse personagem pela segunda vez nos cinemas, em dois ótimos filmes. O interessante é que essas adaptações são completamente diferentes das histórias encontradas nos livros.

Serviços: LUDLUM, Robert. A Identidade Bourne. The Bourne Identity. [Trad.:S. M. Barreto]. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro. 1980.

FORTALEZA DIGITAL

19 de agosto de 2006




Em Fortaleza Digital, livro de estréia do megamilionário Dan Brown, acompanhamos momentos de extrema tensão em uma trama que pode levar ao fim de uma das maiores e mais secretas agências de segurança dos E.U.A: a NSA (Agência de Segurança Nacional). Agência responsável pela decodificação de qualquer tipo de mensagem circulada na internet. Ou seja, uma forma do governo norte americano controlar ainda mais a sua população, com a justificativa de proteger a nação de possíveis atentados terroristas ou algo do gênero.
Os personagens parecem ser criados a partir de uma espécie de “guia padrão de modelos para personagens clichês” que Brown sempre utiliza em todos os seus livros. Nesse, os personagens principais são: a “linda, gostosa e genial” criptógrafa/matemática Susan Fletcher; seu noivo, o “lindo, inteligente, sensível e metido a 007” especialista em línguas, David Becker; o severo, mas bondoso Comandante Strathmore, que tenta controlar a crise de todas as formas lícitas e ilícitas possíveis; um genial programador, responsável pelo programa que pode causar o fim da agência; um cruel, perigoso e frio matador, que responde apenas a um misterioso mandante, que será revelado apenas no final do livro (isso se você ainda não leu nenhum dos outros livros do autor, se leu, sem dúvida descobrirá toda a trama antes da página 50).
Não acredito que o sucesso de Dan Brown esteja ligado a sua genialidade enquanto escritor. Longe disso. Seus livros, não tem nada mais do que histórias polêmicas e interessantes, envolvidos por um bom trabalho de pesquisa (feito em conjunto com sua esposa), com um enredo extremamente batido e previsível, já que ele não teve nem a preocupação de elaborar novas tramas para cada um de seus livros. Mesmo assim, Brown tem o dom de conseguir prender seus leitores até o final de suas obras. Talvez devido aos temas utilizados por ele, como sociedades secretas e conspirações mirabolantes, com personagens bobos e sem profundidade alguma, mas que agradam aos leitores que buscam apenas algumas poucas boas horas de diversão, e nada mais.

Serviços: BROWN, Dan. Fortaleza Digital. (Digital Fortress). [Trad.: Carlos Irineu da Costa]. Editora Sextante, 2005.

PS: Essa crítica é mais uma homenagem a minha grande amiga e colaboradora do Literatura Fantástica, FLAVINHA, que já devorou tudo que foi escrito pelo Dan Brown e é fã de carteirinha do Robert Langdon.

O OITAVO MAGO

11 de julho de 2006



No mundo do disco criado pelo genial Terry Pratchett, os magos têm seus apetites sexuais inibidos pela força da magia, portanto, é muito improvável existirem filhos de magos rondando esse fantástico e hilário universo, onde o principal mundo é plano e sustentado por 4 elefantas gigantes que por sua vez se posicionam em cima de uma tartaruga chamada de Grande A’tuin.
Mas, além da falta de apetite sexual dos magos, é expressamente proibida a eles a paternidade. Isso se deve por razões de segurança para o próprio universo (o que é muito bem salientado e explicado a todos os jovens magos aprendizes dentro dos muros da conceituada Universidade Invisível de Magia).
Fica claro então que o proibido é justamente o que ocorre durante esse quinto livro da mais divertida série de histórias fantásticas criadas desde a morte de Douglas Adams e o fim das aventuras de Arthur Dent e seu “Guia do Mochileiro das Galáxias”.
Tendo como protagonista da história um de seus melhores personagens, o mago que não sabe nada de magia, Rincewind (covarde ao extremo, mas segundo suas próprias palavras, “apenas extremamente cuidado quando se trata de salvar vidas, principalmente quando essa vida for a sua). Pratchett cria uma sensacional história onde a arrogância e sede pelo poder dos magos aparece de uma forma que pode ter consequências terríveis para o disco, alterando-o para sempre.
Quem ainda não conhece esse universo fantástico criado por esse ex-jornalista inglês, tem em o “Oitavo Mago” uma excelente oportunidade de começar, já que ele, como a maioria dos títulos, não segue uma sequência em relação aos outros volumes da série.
Imperdível para os apreciadores de aventuras fantásticas e da fina flor do humor negro na atualidade.

Serviços: PRATCHETT, Terry. O Oitavo Mago “Sourcery”. [Tradução: Roberto DeNise]. São Paulo, 2003. Editora Conrad.

O SENHOR DOS ANÉIS
A Sociedade do Anel

26 de junho de 2006



Muito provavelmente, somente ao ler o título acima, muitas pessoas já vão sentir suas mentes serem preenchidas, seja pelas lembranças dos três espetaculares filmes baseados na obra de J.R.R. Tolkien, seja dos livros igualmente espetaculares, como o que irei comentar com vocês aqui.
O Senhor dos Anéis é uma obra vasta e riquíssima de imaginação, ela é dividida em três partes: A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei. Na primeira parte, encontraremos uma seqüência do livro O Hobbit, também de Tolkien e que narra as aventuras de Bilbo Bolseiro, um hobbit, como indica o título, que se envolve em uma grande jornada e durante a mesma encontra o Um Anel, o objeto em torno do qual gira a trama dos demais livros.
Em A Sociedade do Anel, as atenções continuam voltadas para os hobbits, desta vez na figura de Frodo Bolseiro, sobrinho de Bilbo e que herda o Um Anel, o que ele não sabe é que o tal objeto é o mesmo de uma antiga lenda sobre Sauron, o Senhor do Escuro e que é um artefato poderoso e amaldiçoado que corrompe todos aqueles que o possuem. É a partir dessa descoberta, feita pelo mago Gandalf, amigo íntimo de Frodo, que todo o corre-corre começa, Gandalf sabe que Sauron não está morto e que procura o Anel, por isso envia Frodo junto com Sam, outro Hobbit, em uma jornada perigosa e mortal para tentar impedir que o objeto caia nas mãos erradas, durante toda a campanha outros personagens fantásticos e fundamentais na trama surgirão como os humanos Aragorn e Boromir, o elfo Legolas com seu arco que nunca erra, o anão Gimli e seu machado imbatível, assim como mais dois hobbits, Merry e Pippin, que junto de Gimli são responsáveis pela comicidade da história.
Essa grande aventura criada por Tolkien é deveras densa, mas trabalha coisas simples do dia-a-dia, e que as vezes nos passam despercebidas, como o fato de o destino de toda uma terra estar nas mãos dos menores e supostamente mais fracos seres, os Hobbits, não dá pra não fazer um paralelo com nossas próprias vidas e mundo, onde as aparências são tão importantes e a lei do mais forte impera, Tolkien nos mostra que somos capazes de coisas incríveis independente de sermos grandes, ricos ou fortes, basta acreditarmos em nós mesmos e se for possível, termos amigos de verdade, como no caso de Sam e Frodo, uma amizade que existe pelo amor mútuo que sentem, uma amizade do tipo em que um se doa pelo o outro sem esperar nada em troca, ambos capazes dar a vida pelo amigo. Um outro ponto interessante no enredo é a relação entre Gimli, o anão e Legolas o elfo, duas raças que se toleram, mas que guardam profundo rancor uma pela outra, ainda assim os dois fantásticos guerreiros aprendem a colocar suas diferenças de lado por um bem maior, quem dera isso acontecesse entre negros e brancos, ricos e pobres, homens e mulheres, talvez fosse um sonho também de Tolkien que isso acontecesse.
Muitas vezes as pessoas olham o título de um livro como o Senhor dos Anéis e pensam: “coisa de criança, baboseira fantasiosa”, mas não imaginam como temas tão atuais como preconceito, amizade, superação e amor podem ser tratados de maneira tão direta e profunda através de uma história aparentemente distante de nossa realidade. A Sociedade do Anel nada mais é do que a representação de nossa sociedade, nossos medos e rancores, mas também nossa esperança de que tudo pode mudar para melhor, que podemos superar tudo e transformar nosso mundo e nossas vidas em algo extraordinário.
O Um Anel, objeto que só traz a tona o piro das pessoas que o possuem, explicita nossa ganância e ambição e como podemos ser destrutivos. È contra esse mal que habita nossas almas que a Sociedade irá lutar, tendo que levar o Anel até a terra de Mordor, onde foi forjado, para ali destruí-lo e se não fosse ruim já ter que enfrentar os asquerosos orcs, ainda terão que derrotar suas próprias fraquezas para não perecer na jornada, algo que fica claro na luta de consciência travada por Boromir, entre fazer o que é certo ou o que parece mais fácil, luta que travamos todos os dias nas mais diversas situações. Tudo isso e muito mais você encontrará nas páginas de O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, aventure-se e descubra um pouco mais sobre sua própria natureza, enquanto vaga pela Terra Média.

“Chegará um dia em que os Hobbits governarão o destino de todos.”

Serviços: TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Ed Martins Fontes.