Arquivo da Categoria ‘Vladimir de Sousa’

EU, ROBÔ

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

AS TRÊS LEIS DA ROBÓTICA

1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2. Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Lei.

Provavelmente, o autor Isaac Asimov, foi um dos maiores escritores (juntamente com H. G. Wells) do gênero Ficção Científica no século XX. Pelo menos a sua enorme colaboração em se tratando de histórias com o enfoque na área da robótica, é incontestável. Asimov é como qualquer outro escritor, um reflexo do seu tempo. Escreveu esse livro em 1950, claramente influenciado pelo contexto mundial do pós-guerra, de um mundo que se reerguia e se remecanizava após a destruição ocasionada pela segunda grande guerra. Para o autor, a tecnologia passaria por um grande avanço, que já ocasionaria, a utilização de robôs, nesse caso domésticos, ainda antes do fim do século XX.

Nesse seu livro, Asimov resolve contar toda a trajetória dos Robôs na Terra, desde a sua utilização em pequenos serviços domésticos, como babás de crianças; passando por trabalhos pesados de minerações em locais até então proibidos e impossíveis de para o homem; até a criação de um robô humanóide, que enganasse os seres humanos a respeito de sua verdadeira natureza e chegasse inclusive a virar chefe de estado e líder mundial.
Mas o que controla os robôs e os fazem tão perfeitos e fascinantes? Segundo o universo criado por Azimov, todos os robôs, tem um dispositivo chamado cérebro positrônico, um mecanismo alusivo ao cérebro humano, além disso, ficam gravados nessa memória as 3 Leis Fundamentais da Robótica. São essas leis os mecanismos de controle do homem para com os robôs, são as leis que impedem os robôs, já munidos de uma complexa inteligência artificial (proporcionada pelo Cérebro Positrônico), de se rebelarem do controle escravocrata e preconceituoso da raça humana (alguém lembra do episódio “The Second renaiscense” do Animatrix? Claramente baseado na mitologia Asimoviana). Um livro imperdível para todos os fãs de ficção científica. Não se engane com o filme estrelado pelo Will Smith, que do livro só possui mesmo a alusão às 3 leis da robótica e uma única cena do filme, que vagamente lembra uma passagem do livro.

Serviço: Asimov, Isaac. Eu Robô. “I Robot” [Tradução de Luís Horácio da Matta]. Edibolso, 1976.

O RETRATO DE DORIAN GRAY

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Partindo da premissa do sociólogo Comte, de que “todo homem nasce bom e é a sociedade que o corrompe”, temos em Dorian Gray um exemplo perfeito para justificar essa teoria sociológica.

Dorian Gray é o personagem central de uma história extremamente trágica e fantástica. Um jovem de cerca de 17 anos, dono de uma beleza narcizesca, que fascina a todos que o conhecem, sejam eles mulheres ou homens, tem seu retrato pintado por um devotado amigo. Na noite em que o retrato é terminado, Dorian conhece Lorde Henry Wotton, abastado e libertino amigo do Pintor Basílio Hallward. Lorde Henry, é o burguês com traços aristocratas clássico (cínico, preconceituoso, sarcástico e bon vivant ao extremo), depois de alguns minutos com Dorian, deixa-o completamente perturbado, colocando em sua cabeça questões até nunca imaginadas pelo rapaz, como o do fim da vida e degradação de seus bens mais preciosos (beleza e juventude), devido à atuação do tempo sobre a carne.

Dorian extremamente perturbado com tudo isso e em um momento de grande desespero, em um terrível rompante contra seu amigo Basílio, por ter despertado nele o conhecimento da beleza que até então ele mesmo não conhecia; roga aos céus para que ele nunca envelheça e toda a ação do tempo sobre ele, além da marca dos pecados que cometesse dali em diante fosse transferida á pintura.

Mais calmo e inconsciente do pedido que fez, estreita-se à amizade entre Dorian e o Lorde, sendo Basílio colocado gradativamente de lado. Mas o mais inacreditável esta por vir. Possuído pela mesma paixão que o fizera perder a cabeça quando seu quadro ficou pronto, Dorian Gray acaba conhecendo a jovem Sibyl Vane, uma adolescente atriz que por seu amor dedicado à arte de atuar, conquista o amor de Dorian. O fim trágico dessa história de amor e outros acontecimentos levam a uma drástica mudança na personalidade, até então em formação, desse personagem. E é nesse contexto que ele percebe a alteração em seu quadro e que fantasticamente, o desejo feito em um momento de fúria se realizou. E se inicia a gradual destruição da figura no quadro, a figura representativa da alma de Dorian Gray, que a cada dia que passa se perde ainda mais no abismo da maldade.

Dorian é apresentado a escritos hedonistas, onde a busca do prazer deve ser o objetivo primordial e único de todos os homens; onde as causas, os modos e as formas não têm nenhuma importância, perante o objetivo principal. Dorian, então, é jogado em um mundo escuro, onde pecados são esquecidos apenas quando outros ainda maiores são cometidos. Uma pergunta feita a Dorian em determinado momento da obra, é bastante ilustrativo a respeito disso: “qual o proveito de um homem que ganha o mundo inteiro, mas perde sua própria alma?”. E é isso o que vemos ocorrer com ele. O bem e o mal são sempre discutidos e interpretações distintas são sempre atribuídas a eles. Quando Dorian faz uma boa ação, faz por realmente estar tentando ser bom, ou seria exatamente pelo contrário, e suas atitudes longe de possuir bondade, seriam apenas formas de enaltecer ainda mais seu já enorme ego? Como um toque de Midas ainda mais bizarro, tudo o que ele toca se degrada.

Wilde, enquanto escritor, foi um grande questionador e crítico da sociedade e do período em que viveu, e ele utiliza Lorde Henry para ser seu porta voz:

“(…)todo mundo pode ser bondoso no campo. Lá não há tentações. E é esta justamente a razão pela qual as pessoas que vivem fora da cidade não são absolutamente civilizadas. A civilização não é, de maneira nenhuma, uma coisa fácil de se alcançar. Há apenas duas maneiras de chegar a ela. Uma é a cultura e a outra, a corrupção. Ora, a gente do campo não tem oportunidade de travar conhecimento com qualquer das duas maneiras; por isso fica completamente estagnada(…)”

Serviço: WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. “The Picture of Dorian Gray”. [Tradução de Oscar Mendes]. Editora Abril, 1980.

O VAMPIRO LESTAT
AS CRÔNICAS VAMPIRESCAS

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

E eis que a escritora decide dar uma reviravolta surpreendente a sua trama. Após formamos e cristalizarmos em nossas mentes a figura de Lestat como uma odiosa, terrível e egoísta criatura, somos levados a ver o mundo através de seus olhos e através disso descobrir que ele é muito mais do que Louis contou a seu respeito. Lestat é o personagem mais bem trabalhado e com certeza mais querido por Anne Rice. Deve ser o mais querido também dos leitores, acredito eu que pelo menos de uma maior parte deles. As Crônicas Vampirescas em si, não são nada mais do que as narrações das muitas aventuras de Lestat, contadas a partir de suas memórias.

Lestat acorda vários anos depois de seu torpor voluntário, devido aos ensaios de uma bandas Rock. Estamos nos anos 80, época perfeita para um vampiro se misturar entre as pessoas, e é isso o que nosso herói decide fazer. Ele lê a entrevista de Louis a Daniel e por isso decide contar a sua própria versão dos fatos. Sem nenhum rancor de Louis, ele volta vários anos no passado e nos faz entender sua personalidade, seus desejos e motivações.

Uma das principais características de todos, ou pelo menos quase todos os livros de Anne Rice, é partir do presente para o passado, a partir da narração do personagem principal. Então, partimos do presente para o passado de Lestat, ainda mortal, no interior da França, como um jovem aristocrata de uma grande família. Esse jovem possuía um sonho que não envolvia a enfadonha vida no campo e apesar de seu pai reprimir essas vontades, sua mãe, Gabrielle, sempre as incentivava.

Lestat decide fugir com seu amigo Nicolas para paris, e lá tentar a carreira de ator, mesmo contrariando as ordens de seu pai. E é lá que Lestat é atacado pelo cruel Magnus, que percebendo a grande força e vitalidade de Lestat, o transforma a força em uma criatura das trevas, suicidando-se logo em seguida.

Esse livro ainda apresenta a transformação de gabrielle, mãe de Lestat em vampira, a primeira aparição de Marius (um dos mais interessantes vampiros de todos os criados por Rice), portador do segredo da origem do próprio vampirismo. Somos surpreendidos com a maravilhosa história de Armand, que de adorador do demônio passa a ator no Teatro dos Vampiros (como mostrado no livro anterior).

Somos apresentados também aos fascinantes membros da Ordem Talamasca. Os membros dessa ordem são observadores do estranho, do sobrenatural. E são eles que de certa forma fazem as primeiras ligações entre as Crônicas vampirescas e as Crônicas da Família Mayfair (outra saga espetacular de Rice). A Talamasca possui o lema de observar, sem nunca interferir, mas será que seus membros conseguirão isso?

Com um final épico após uma apresentação da banda de rock de Lestat e uma sangrenta batalhas entre diversos vampiros insatisfeitos com ele por ter em suas músicas desvendado vários segredos da raça vampírica, o livro se encerra. Recomendo para quem comprar esse livro, adquirir juntamente com ele o “Rainha dos Condenados”, pois trata-se de uma continuação direta.

Com certeza um dos melhores livros da autora.

Serviços: RICE, Anne. O Vampiro Lestat, Segundo Volume das Crônicas Vampirescas. Editora Rocco.

ENTREVISTA COM O VAMPIRO

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

De todos os livros de Horror que li até hoje, esse com certeza tem um lugar bastante especial entre meus preferidos. Não por sua qualidade em si (a própria Anne Rice escreveu livros bem melhores), mas por ser o primeiro de uma série vampiresca espetacular. Na minha opinião Rice remodelou essas curiosas e instigantes criaturas da noite com esse livro. Guardando as suas devidas proporções, o mesmo que Bran Stoker fez com Drácula no século XIX. As “crônicas vampirescas” da autora possuem características únicas, que tornam seus personagens muito mais interessantes e vivos.

Em “Entrevista com o Vampiro”, acompanhamos a primeira entrevista dada por um sugador de sangue de verdade. A narrativa (que é repetida em todos os livros pertencentes as Crônicas) do livro é feita exatamente como uma entrevista, como um relato de vida (ou não vida) de uma criatura fadada ao sofrimento eterno. O nome dessa criatura: Louis.

A partir de seu relato, viajamos até Nova Orleans (Cidade da autora e palco preferido em 90% de suas tramas), ainda no século XVIII. Louis é um fazendeiro, que após passar por uma série de sofrimentos, se entrega ao alcoolismo e entra em um rápido processo de autodestruição. É aí que ele encontra Lestat, perversa criatura que manifesta em sua personalidade todo o desprezo imaginado em relação à vida mortal. Para ele, os seres humanos não passam de alimento. Louis e Lestat se envolvem em uma trágica história de amor e ódio, onde o desprezo, o ódio, a amizade e a dependência andam juntas em todos os momentos. A história nos leva dos EUA, até o velho continente, nos apresentando mais uma série de personagens que posteriormente receberam mais destaque em outros livros. Claudia e Armand são personagens fascinantemente trágicos. Todos amam Louis e ele também os ama, mas ao mesmo tempo os odeia profundamente e sua condição é a principal responsável por isso. A vida de vampiro não é tão interessante como muitos pensam e a destruição final é muito mais fácil do que imaginam. É com isso que o personagem principal tem que conviver, com a raiva por ter sido transformado e a tentativa de negação de sua nova natureza. Louis é de longe o personagem mais humano, e por isso o que mais sofre, dos muitos criados pela autora. E todo esse sofrimento chega a nos comover durante a leitura do livro, o que nos faz pensar e valorizar ainda mais a vida e sua fragilidade e algo banal para todos nós como assistir o nascer do sol e caminhar durante o dia.

Muitos comentam o forte homoherotismo das obras de Rice, sendo esse um dos principais motivos para o estranhamento de sua obra. Eu, depois de já ter lido quase todos os seus livros, faço outra leitura a esse respeito. Acredito que os vampiros são criaturas assexuadas, mas ao mesmo tempo apaixonadas, mas falo isso em um sentido mais metafísico, onde o corpo não é importante e sim o próprio ser. Portanto, nem todos os vampiros são homossexuais, são criaturas amantes da vida e da personalidade do ser humano, que se apaixonam por homens e mulheres e isso fica claro em muitas passagens, em quase todos os livros de Anne Rice.

Portanto, se você gosta de um bom romance de horror gótico, com personagens muito bem construídos e apaixonantes, comece por esse, pois ele é o início de tudo. Mas por favor, cuidado. E não se sinta satisfeito e contemplado pelo filme de Neil Jordan, com Tom Cruise (Lestat) e Brad Pitt (Louis), pois apesar de ser muito bom e fiel a obra, não chega aos pés do romance.

Serviços: RICE, Anne. Entrevista com o Vampiro. Tradução de Clarice Linspector. Editora Rocco.

O QUARTO K

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Acho que esse é o terceiro ou quarto livro que leio escrito pelo excelente Mario Puzo. O melhor deles ainda é de longe o clássico O Poderoso Chefão. Mas esse com certeza é um dos melhores livros que ele já publicou.

Ambientado em um futuro não tão distante e não tão impossível (trocando apenas o Kennedy por outro qualquer), Puzo nos coloca dentro de uma trama violenta, perigosa e o pior de tudo, com exceção de alguns exageros que a própria obra permite, possível.

Não tem como não notar uma pequena semelhança entre Francis Xavier Kennedy e William W. Bush, mesmo sabendo que quando o livro foi escrito (1990), Bush filho ainda ia demorar um pouco para ser o “dono do mundo”.

Puzo escreve seu livro baseado em todo contexto que estava vivendo, e acredito eu, incluindo a própria guerra do Iraque (a de 1990, claro). Terrorismo, capitalismo, poder aparentemente ilimitado das grandes corporações, ameaça nuclear, fragilidade da vida, manipulação de fatos pela mídia e principalmente, a facilidade do advento do totalitarismo apoiado pelo próprio “povo” como forma de patriotismo, pois geralmente, “o povo” não percebe a importância do seu direito de opinar e seu dever de participar, delegando todas as suas responsabilidades nas mãos de outros, que no final das contam não governam para quem vota, e sim para quem tem mais dinheiro. Isso é fato, seja na vida real ou em uma realidade fictícia como é o caso dessa criada por Mario Puzo.

O livro nos leva a momentos repletos de tensão, nos fazendo mudar constantemente de opinião sobre o desenrolar da trama. Mas se no início, Puzo arrisca e acerta em cheio através do impacto de dois terríveis assassinatos, erra feio em tentar fazer um final Disney, onde tudo acaba da mesma forma que começou, servindo apenas como um alerta através de uma lição de moral. Disso eu não gostei.

Uma leitura que com certeza vale muito a pena.

Serviços: PUZO, Mario. O Quarto K. Editora Record. Rio de Janeiro, RJ.