Arquivo da Categoria ‘Sérgio A. M. Filho’

UMA NOVA MITOLOGIA ESPACIAL

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Com O restaurante no fim do universo, a série do mochileiro das galáxias ganha contornos mitológicos. Uma mitologia que a exemplo de tantas outras tem a preocupação de explicar a origem do universo e o sentido da vida, mesmo que ela não tenha sentido nenhum.

Diferentemente de outros mitos que constroem o Cosmos, em sua mitologia Adams vai destruindo tudo o que estiver à sua frente: A terra; a egolatria; e nesse segundo título da série, o universo.Pois é no milliways, o tal restaurante, que vemos todo o infinito se esvair. Um espetáculo ímpar para quem degusta um boi suicida.

Essa continuação é acentuada pelo humor sarcástico do escritor inglês, principalmente devido à sua atitude iconoclasta sempre velada por um verniz cômico. Este é o maior mérito da obra, já que aqui a função lúdica da literatura é destruir para fazer-nos rir, e pensar.

Serviço: ADAMS, Douglas. O Restaurante no Fim do Universo “The Restaurant at the End of the Universe”. [Tradução de Carlos Irineu da Costa]. Sextante, 2004.

AUGUSTO DOS ANJOS: “O MISERÁVEL DENTRE OS MISERÁVEIS”

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Diferentemente dos cearenses, que elegeram “padim ciço” personalidade do século, os nossos vizinhos da Paraíba identificaram-se profundamente com o poeta Augusto dos Anjos e meritosamente o escolheram paraibano do século XX. O povo da Paraíba viu que milagre maior foi “O poeta do hediondo” utilizando-se de uma linguagem científica, de uma simbologia hermética, de uma morbidez cheirando a cemitério e carne putrefata e de um extremo pessimismo no tocante ao ser humano, ser o bardo mais lido entre os jovens e ter sua única obra publicada ainda em vida, no ano de 1912, intitulada Eu, como o livro de poemas mais vendido da história da literatura brasileira.

A poética de Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, nascido em 20 de abril de 1884 no engenho Pau d’ arco em Campina Grande, é uma transfiguração do seu perfil biográfico. Augusto veio ao mundo já dentro de uma atmosfera de decadência, como ele mesmo diz em um de seus versos mais famosos: “Sofro, desde a epigênesis da infância”. Seu pai, Alexandre dos Anjos, era dono de engenho num período em que o engenho estava decadente, e é com seu genitor, homem dado à intelectualidade, que o futuro poeta tomaria gosto pela Arte literária, Filosofia e Latim.

Tanto seu pai quanto sua mãe Córdula dos Anjos eram altamente conservadores. Consta que certa vez Augusto apaixonara-se por uma tal Maria,moça pobre que dele dele engravidou, sabendo do ocorrido os pais repressores ordenaram matar a inocente mulher juntamente com a criança que nasceria. Esse episódio marcou profundamente a visão do poeta sobre a vida, passou a ver a dor e o sofrimento constantes como fatores essenciais para viver, “Dor, saúde dos seres que se fanam,/Riqueza da alma, psíquico tesouro,(…)/És suprema! Os meus átomos se ufanam de pertencer-te oh! Dor, ancoradouro/ Dos desgraçados, sol do cérebro,(…)/Minha maior ventura é estar de posse/de tuas claridades absolutas!”.
O incidente com Maria está em forma de alegoria no soneto A árvore da serra, no qual Augusto dialoga com seu pai, que determina cortarem a tal árvore,pois “-As árvores, meu filho, não têm, alma!”, ao que o interlocutor clementemente pede, “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”,”Esta árvore,meu pai, possui minha’lma!…”.Como no poema Augusto “triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!”, deixando morta também a semente da qual geraria sua descendência.

Porém em 1910 o poeta casa com Éster Fialho, com quem teve três filhos,o primeiro natimorto em 1911; em 1912 nasce Glória, a quem dedica o Eu; e no ano seguinte Guilherme. Mas o efeito Maria deixa fortes sequelas em Augusto ao ponto dizer que jamais voltaria a “amar mulher alguma”.

Desde os tempos do Liceu paraibano que Augusto dos Anjos era visto pelos demais como um ser desafortunado, sobre isso escreve seu melhor amigo, Órris Soares:”Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida-faces reentrantes, olhos fundos, olheiras violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura, e nos lábios uma crispação de demônio torturado.” Tal descrição é a concretização física de sua Psique.

“A que escola se filiou?”, pergunta Órris Soares. A poesia de Augusto dos Anjos é na verdade um caleidoscópio estético, são muitos os estudiosos que se debruçam sobre a obra do paraibano e munidos de argumentos exegéticos o enquadram nesta ou naquela escola literária. As leituras de sua lírica vão desde o Barroco ao Pré-Modernismo.

Na época do lançamento do Eu, foram poucos os críticos a reconhecer a envergadura que os poemas da obra alcaçariam, Gilberto Amado foi um dos que conseguiram visionar a poética do paraibano:”Começa(…)um movimento de imitação a um rapaz histérico(…)de extraordinário talento(…)misantropo,(…)Augusto dos Anjos.” Já o “príncipe dos poetas”, Olavo Bilac, enojado pela estética de Augusto felicitou-se quando da morte deste.

Mesmo execrado pelos parnasianos e ignorado pelos modernistas de 22, a lírica lúgubre de dos Anjos sobreviveu com fôlego total a toda e qualquer opressão literária.

O pobre Augusto dos Anjos viveu enfermo da alma e morreu com pneumonia aos 30 anos, em 12 de novembro de 1914 na cidade de Leopoldina em Minas Gerais, bem longe de sua terra natal. Do mesmo modo que os grandes nomes da literatural universal, o poeta Augusto teve sua expressiva obra elevada ao cânone da literatura nacional, pois ela sempre esteve viva e assim permanecerá para todo o sempre.

Serviços: Anjos, Augusto dos. Eu e outras poesias. São Paulo: Martin Claret, 2004.

O PEQUENO PRÍNCIPE: UMA LIÇÃO DE VIDA

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Nas últimas páginas de O Pequeno Príncipe o aviador que narra a história indaga junto ao leitor se o carneiro dado de presente por ele ao principezinho comeu ou não a flor, pois ele havia esquecido de desenhar a correia de couro que prenderia o focinho do animal. É nessa indagação que reside um dos significados mais sublimes da principal obra de Antoine de Saint-Exupéry. Trata-se de uma metáfora que representa a inocência.

Olhar para o céu e procurar pelo planeta B612 e perguntar a si mesmo se “o carneiro terá ou não comido a flor?” é a eterna busca pela inocência perdida.

O Pequeno Príncipe vem ao longo do tempo cativando gerações de leitores adultos e crianças. Quem nunca se emocionou com as aventuras do garotinho loiro e de cabelos cacheados, dono de uma rosa nada modéstia?; de sua amizade com o aviador e a conversa com a raposa?, que aconselha: “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” Mais filosófico do que essa máxima, só a insistência do principezinho em perguntar “o que é?” para tudo o que desconhece, demonstrando uma profunda preocupação em descobrir a verdade das coisas. Ensinamentos humanistas como o valor da verdadeira amizade, permeiam todo o livro, é a importância de “criar laços” que faz a raposa dizer: “Se tu me cativas nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo.”

Pela sua preocupação humanista em resgatar um sentimento esquecido, porém tão nobre, O Pequeno Príncipe é acima de tudo uma lição de vida e uma homenagem à tenra infância, ou àqueles que a perderam.

Serviços: Saint-Exúpery, Antoine. O Pequeno Príncipe. 48 ed., Rio de Janeiro: Agir, 2003.

O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS OU A COMÉDIA CRÍTICA DE DOUGLAS ADAMS

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

“Muito além, nos confins inexplorados(…)desta galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol,(…)há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante…

Este planeta tem-ou melhor, tinha-o seguinte problema:a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.”

Assim começa O guia do mochileiro das galáxias, e é com essa ironia que o inglês Douglas Noel Adams vai pautar essa sua obra de ficção-científica cômico-filosófico com pintadas de surrealismo.

Nesse sentido Adams nos faz pensar sobre a condição humana e seu papel no mundo, ou melhor, no “planetinha verde-azulado absolutamente insignificante.”

Questões como a inteligência do homem, o sentido da vida e a origem da terra são escancaradas por Adams com muita comicidade. Pelo menos a origem da terra é descoberta pelo protagonista Arthur Dent, ainda que por um perço altíssimo:a dizimação do nosso planeta.Episódio este muito mais cômico do que trágico. Arthur Dent é salvo minutos antes da destruição total pelo seu amigo extra-terrestre Ford Prefect, e com ele conhecerá boa parte da galáxia, mostrando-nos que o restante do universo não é tão diferente do planetinha azul. Aqui Adams faz do cosmos uma alegoria das relações político-sociais que nós vivemos. A burocracia, a corrupção e a imcompetência governamental estão sempre na mira da perspicaz sátira do escritor inglês.

Em o guia do mochileiro, a reflexão filosófica se dá pela via do lúdico, isto é, ao mesmo tempo diverte e faz pensar, principal pressuposto da Literatura infanto-juvenil de boa qualidade.

O ponto alto da obra, no que concerne à Filosofia, é um suposto diálogo entre Deus e o Homem, no qual o Ser supremo (numa hilária dialética) prova Sua inexistência. Segue-se assim outras cenas bastante engraçadas, que nas entrelinhas é possível detectar certa profundidade conteudística, como a incessante busca pela grande resposta à pergunta sobre a vida o universo e tudo mais, cuja solução está longe de satisfazer os habitantes do universo, que esperam há milhões de anos pela tal resposta.

Evidentemente que Adams não parece querer dar uma resposta definitiva às questões que norteiam a humanidade, até mesmo porque O guia do mochileiro é antes de qualquer coisa uma excelente comédia, a qual pode muito bem oferecer ao leitor, base para uma boa discussão sobre essas indagações que há milênios tiram o sono dos pensadores, e talvez essa problemática nunca venha a ser solucionada. Ainda bem!

Serviço: Adams, Douglas. O guia do mochileiro das galáxias.[Tradução de Carlos Irineu da Costa & Paulo Henrique Britto]. 2ª ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

O HEDONISMO NATURALISTA DA CASA DOS BUDAS DITOSOS

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Orgias,pederastia,lesbianismo,incesto,pedofilia e zoofilia.Essas práticas sexuais nada convencionais vividas e ditadas a um jornalista por uma sexagenária terminal e publicadas pelo escritor baiano João Ubaldo Ribeiro estão em A Casa dos Budas Ditosos,livro que tematiza a Luxúria e que é parte da coleção Plenos Pecados da editora objetiva,que encomendou um romance para cada Pecado Capital.

Se essa senhora de 68 anos realmente existiu,como nos faz crer a obra,ou se ela não passa de uma criação do escritor baiano é,do ponto de vista literário,uma discussão bastante infrutífera,o certo é que esse “depoimento espantoso” tem uma vericidade fortemente alicerçada na realidade.

A narradora, a tal sexagenária terminal é,assim como as pessoas com as quais ela conviveu,essencialmente hedonista,prega por exemplo que a vida deveria ser vivida duas vezes,uma para ensaiar e outra para viver de fato.E é com essa filosofia de vida que a mesma nos conta suas aventuras sexuais desfrutadas nas décadas de 1950,60 e 70,sem o menor pudor ou arrependimento,como em o Satíricon de Petrônio.Sendo que nA Casa… a protagonista age muitas vezes em confronto com a sua visão de mundo cristã.O sexo passa a ser praticado,além do prazer proporcionado,como uma forma de libertação do jugo religioso,afinal de contas a Luxúria é um dos pecados Capitais instituídos pela Igreja Católica.

É necessário dizer que essa senhora a qual não se identifica,não foi na sua juventude uma prostituta desprovida de conhecimento e bens materiais,ela é proveniente da burguesia baiana,tem formação acadêmica em Direito,cursou Pós-Graduação e Mestrado nos EUA e costuma citar com profunda sabedoria,num mix de gírias e eruditismos,do Poeta latino Quinto Horácio Flaco ao Filósofo francês Jean paul Sartre e de William Shakespeare a Choderlos de Laclos,entre outros.Em suma, trata-se de uma Femme Fatale.

Portanto,apesar das descrições explícitas do ato sexual,abrindo mão de metáforas e lirismos,a obra não é mera pornografia ou apelo sexual com fins lucrativos,A Casa… é antes de tudo isso boa Literatura Erótica,e se enquadra perfeitamente na escola Realista-Naturalista,que escancara os instintos animais presentes no ser humano,denunciando deste modo a hipocrisia dos “politicamente corretos”.A Casa…,e suas idéias polêmicas(diz a narradora que em maior ou menor escala somos todos bissexuais)expôe cruelmente um lado do “Homem-macho” e do “Homem-fêmea” que a própria espécie se recusa a admitir que possui.

O(a) leitor(a) apreciando ou não esse “relato”literário irá no mínimo se sentir chocado ao lê-lo,e dependendo do grau de conservadorismo de cada um,A Casa os farão repensar seus conceitos sobre liberdade sexual.

Serviço: Ribeiro, João Ubaldo.A Casa dos Budas Ditosos.São Paulo:Objetiva,1998.