Arquivo da Categoria ‘Sérgio A. M. Filho’

A PERDIÇÃO DE CAMILO CASTELO BRANCO

domingo, 23 de abril de 2006



A Obra é o Homem. Essa máxima da teoria literária é vista com nitidez na obra do português Camilo Castelo Branco. Homem de vivência desregrada, ultra romântico; obra igualmente ultra-romântica na qual é possível detectar a marca única e inconfundível do autor: seu estilo. Impossível analisar o acervo camiliano sem contextualizá-lo.
Assim é vista a novela Amor de Perdição que narra a história de um casal de adolescentes e seu romance malfadado. Como o mito de Píramo e Tisbe, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque são vizinhos mas suas familias se odeiam devido a uma causa de lítigio vencida por Domingos Botelho, pai de Simão, em detrimento de Tadeu de Albuquerque, pai de Teresa.
O amor exarcebado e “proibido” dos protagonistas de Amor de Perdição foram fortemente influenciados pela experiência de vida de seu autor. A Teresa de Camilo Castelo Branco foi Ana Plácida, mulher casada que do mesmo que o autor português foi presa a mando do marido traído. E é na prisão que Camilo em tempo recorde de quinze dias escreve sua mais conceituada obra.
Para Camilo Castelo Branco a Literatura foi, além do suporte financeiro, seu sustentáculo anímico. Para ele a Literatura é uma necessidade urgente de dar vida a sua existência, por isso em Camilo a Catarse se dá muito mais via escritor-obra do que obra-leitor. O que não diminui em nada sua literariedade, já que como profundo conhecedor da estrutura da Língua Portuguesa Camilo tem uma faculdade de expressão magistralmente ágil e culta, domina os recursos da linguagem produzindo textos dinâmicos e de marcante aceitação. Suas tramas,mesmo previsíveis, prendem a atenção do mais monótono leitor.
Como uma boa obra ultra-romântica o desfecho do autor português foi de igual tragicidade. Devido a sua vida boêmia Camilo contrai sífilis deixando-o cego. Sem conseguir enxergar para escrever, suicida-se com um tiro no ouvido direito no dia primeiro de junho de 1890.

Serviços: Branco, Camilo Castelo. Amor de perdição.Martin Claret:São Paulo, 2001.

ALIENISTA OU ALIENADO?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005



O conto O Alienista de Machado de Assis narra em terceira pessoa um episódio da história da cidade de Itaguaí, onde o protagonista que dá nome ao conto, Simão Bacamarte, debruça-se sobre os estudos da loucura humana.
O médico de loucos vai observando ao longo do tempo e em toda Itaguaí o comportamento dos seus moradores, declarando-os um a um como dementes. Machado trata nesse conto da condição humana sob a ótica da loucura, refletindo o que seja a razão e a alienação humana.
O próprio título do conto em um segmento do texto está confrontado com um termo morfologicamente semelhante mas semanticamente distinto, formando desse modo a dicotomia alienista-alienado. Observa-se aí a intenção em questionar os conceitos destas duas palavras. Seguindo essa linha de raciocínio notemos na esfericidade das personagens a ambigüidade humana, como negar a atual condição ou posição por uma questão de sobrevivência, assumindo posturas que lhes convém em dado momento. É o caso do boticário Crispim Soares que mesmo sendo íntimo de Simão Bacamarte resolve passar para o lado do barbeiro Porfírio, por medo de ser acusado de cúmplice do alienista. Assim o é também este barbeiro que estando legalmente a frente da vila adquire uma postura diferente da que o levou a tal posto.
Sobre o conceito de loucura, em certa passagem do conto Simão nos confunde conjecturando que loucos seriam os equilibrados, e o desequilíbrio seria marca da sanidade humana. Há nessa inversão de conceitos uma crítica ao senso comum, que prega a aparente honestidade como marca de bom caráter.
A descrença quanto à retidão humana -comum na obra realista de Machado- é o ponto de partida para o novo método de cura do alienista, provando a infalibilidade humana, pois “cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida, e o efeito era certo”.

Serviços: ASSIS, Machado de. O Alienista. São Paulo: Martin Claret, 2003.

A METÁFORA DA LIBERDADE

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

“Ao verdadeiro Fernão Capelo Gaivota que vive em todos nós”. Richard Bach.

As gaivotas são aves litorâneas que não voam mais de 30 metros de altura, fazendo sempre o mesmo percurso: da areia da praia até a superfície do mar a fim de se alimentarem dos peixes e restos de comida deixados pelos barqueiros. Nenhuma gaivota se interessa em ir além disso, todas têm um único objetivo na vida: comer. Todas, exceto Fernão Capelo Gaivota, que mesmo desencorajado pelos seus pais e banido de seu meio, supera as limitações de sua natureza aviária. O clássico de Richard Bach nos fala de forma metafórica sobre a conquista da liberdade. Pois Fernão Capelo não é uma gaivota vulgar como seus pares, presos às rígidas leis do bando. Fernão cria suas próprias leis e realiza o sonho de atingir vôos inimagináveis aos seus semelhantes. A História de Fernão Capelo Gaivota é a história da descoberta do “eu” que busca ser livre à revelia das velhas convenções sociais. O romance de Bach é uma pequena, porém grandiosa, enciclopédia de frases filosóficas e poéticas que fixam emotivamente na memória. Como o personagem- título, o bom leitor vai compreender o quanto é possível fazermos vôos sem pensarmos em limites numéricos; eternizar o momento; ultrapassar as fronteiras do tempo passado e futuro; vencer os obstáculos impostos pelo espaço. Enfim, ser puramente livre. Esse é o pensamento vivo de Fernão Capelo Gaivota.

Serviços: A História de Fernão Capelo Gaivota. Ed. Nórdica, 1970, Rio de Janeiro.

A MESA VOADORA

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Há pecado mais delicioso que a gula? Para Luis Fernando Veríssimo, definitivamente não. Mesmo que isso venha agravar o seu colesterol.

Em A mesa voadora a comida não foge à inteligência (e ao estômago) do cronista gaúcho.

São crônicas que vão desde conselhos ao leitor, de como se comportar num buffet,– “É comum o garçom carregar no arroz para poupar o estrogonofe. Ao apresentar seu prato, encare-o e diga, com o olhar: ‘Eu conheço a sua laia, patife. Se me sonegar o estrogonofe, enfiarei a sua cabeça no molho vinagrete até que você morra!”–, passando por críticas à cultura do fast food – “Vivemos nas bordas dessa voracidade ao mesmo tempo ingênua e terrível (…). Somos cada vez mais fascinados e menos críticos diante do grande apetite americano e de um projeto de hegemonia chauvinista e prepotente como sempre, agora camuflado pelos mitos da globalização”— chegando à sua cômica frustração ante “o come e não engorda”—“Ninguém é mais admirado ou invejado do que o come e não engorda (…). É o que come o dobro do que nós comemos e tem a metade da circunferência e ainda se queixa:

- Não adianta. Não consigo engordar”.

Melhor do que as guloseimas alimentícias, só os textos de A mesa voadora, que são para um guloso leitor tão deliciosos quanto um refinado prato para um ávido gourmet.

Então prepare a mesa, abra o livro e saboreie os “pratos variados” de Luis Fernando Veríssimo.

Serviços: Veríssimo, Luis Fernando. A mesa voadora. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

MR. MORRIE-ADORÁVEL PROFESSOR

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Ex-universitário que só vive para o trabalho reencontra após 16 anos seu velhor professor no leito de morte, e juntos aprenderão o valor inestimável da vida.Clichê? Sim. Mas quem disse que a vida não é feita de clichês. A prova é esse livro, que é um achado.

A última grande lição: o sentido da vida, não tem a dura intenção de ser um romance literário, é muito mais uma singela homenagem do autor, Mitch Albom, ao seu professor de Sociologia na faculdade, Morrie Shwartz. Uma belíssima e emocionante homenagem.

Durante catorze terças-feiras o antes aplicado aluno Mitch Albom, conversa com o professor que o marcou profundamente nos tempos de universidade, até a morte deste. Nesses mais de três meses de encontros os dois dialogam, sem muitas pretensões filosóficas, e sim de forma simplória, sobre as coisas essenciais da vida.

Um excelente livro para se ganhar de presente de uma grande amiga ou amigo.

Serviço: Albom, Mitch. A última grande lição o sentido da vida; tradução de José J. Veiga. 21 ed. Rio de Janeiro:Sextante,1998.