A VILANIA INCONSCIENTE DOS HERÓIS

Imagine um universo das HQs na qual apenas os vilões existissem? Difícil vislumbrar algo do tipo já que as revistas levam o nome dos heróis. Imagine então o contrário. Se somente os heróis existissem? Tudo seria monótono e portanto sem graça, pois os vilões é que são os responsáveis por colocarem os heróis em ação, e a ação é o cerne do enredo de todo gibi de heróis com superpoderes ou super-habilidades.
Apriori o vilão tem um objetivo predeterminado à existência do herói, este é mais um – e o mais difícil – obstáculo à realização dos planos maléficos daquele. Em alguns casos o seu heroísmo só é realçado na medida em que o vilão fracassa diante de tal combate, fato que acaba por engrandecê-lo diante do senso comum que o adjetiva de herói.


Na minissérie Um conto de Batman - de volta à sanidade em quatro edições no formato americano, a dualidade entre herói e vilão é posta em destaque.
Batman, após enfrentar mais uma armadilha do seu mais demente inimigo, o Coringa, desaparece às vistas por um tempo considerável. Seria então a ocasião propícia para o coringa atacar longe de qualquer importunação. Porém não é o que ocorre, sem o cavaleiro das trevas à espreita o néscio incorrigível volta à sanidade, torna-se um cidadão simples, comum e imperceptível como milhões de pessoas às quais ele passa a conviver pacificamente.
Reaparecendo, o paladino criado por Bob Kane ressurge das, e nas trevas para fazer retornar as trevas, e tudo no universo dos quadrinhos se normaliza, principalmente porque o Coringa “recupera” sua loucura. Aqui é posto em xeque a função do herói. Se Batman tivesse de fato morrido não haveria risco algum à Gotham City, pois a vilania do seu arquirival havia esvaecido juntamente com seu heroísmo. Logo ambos resnacem juntos. Quem é aqui é o vilão da história?
Narrativa semelhante tem o filme Unbreakable (Inquebrável), do diretor e roteirista M. Night Shyamalan, traduzido no Brasil como Corpo fechado. David Dunn (Bruce Willis) é um sujeito trabalhador e pacato em vias de um fracasso matrimonial que numa certa tarde sofre um acidente de trem no qual sobrevive – dentre 131 mortos, num trem com 132 pessoas – sem nenhum arranhão sequer. É nesse momento que Dunn conhece Elijah Price (Samuel L. Jackson), um homem que devido a uma doença de nascença tem os ossos frágeis como vidro. Price é um colecionador de quadrinhos que apresenta a Dunn a seguinte teoria: heróis existem de verdade, a arte seqüencial seria uma retratação exagerada dessa realidade. Ele acredita também que para cada pólo há seu correspondente extremo.

O constante contato entre ambos vira uma amizade que ajuda Dunn a se conhecer mais profundamente: sua natureza; sua história de vida; sua origem heróica; seus poderes e até sua fraqueza. Desse modo o personagem de Willis transformasse efetivamente num herói com direito à notícia estampada em página de jornal. Acontece que graças a seus poderes revelados por incentivo de Elijah, o inquebrável descobre que o acidente do qual escapou plenamente ileso não foi bem um acidente e muito menos um caso isolado, foi antes de tudo uma série de ataques planejados por Price a fim de provar na prática sua teoria. Ora, Price é o sujeito que se quebra como vidro, precisa encontrar seu pólo extremo, alguém inquebrável como aço, mesmo que à custa de centenas de vidas inocentes, pois sem tamanho sacrifício humano o heroísmo de Dunn jamais seria descoberto, isto é, se Price nunca tivesse existido, a heroicidade de Dunn provavelmente não existiria também. Então não haveria herói, mas também nenhum sacrifício humano seria necessário.
Afinal, quem realmente é o vilão da história?

8 comentários para “A VILANIA INCONSCIENTE DOS HERÓIS”

  1. vladimir disse:

    Acho que ficou bom, gostou da edição Serjão?

  2. H. Hideki disse:

    Olá, aceitam mais membros resenhistas ou estão num círculo de amigos intransponível?

    De um jeito ou de outro, aceitam colocar o link do meu blog nos ‘blogs’? Acredito ser digno de tal privilégio.

    Abraço.

  3. sarinha disse:

    \O Sérgio sumiu??/

    A respeito do post,é o simples fato de que o mal e o bem não devem ser tidos como algo contrário,mas como algo complementar…
    se um dos dois não exitir, não há razão para que o outro exista.
    O que seria a boa ação se não houvesse a má?O conceito de um é ser o contrário do outro.Realmente não saberíamos dizer se algo/alguém seria ruim…não existiria o “ruim”.
    Blah.
    Bjos Bjos.

  4. Cineasta 81 disse:

    Excelente blog! Finalmente encontrei algum lugar onde posso conversar e ler sobre ficção.
    Te adicionarei aos links do meu blog e voltarei sempre.

    Abraço

  5. Gérson disse:

    belo texto…

  6. Cineasta81 disse:

    Parou de postar de vez ?

  7. vladimir disse:

    Fico muito feliz em ver comentarios como os de vcs que dão o respaldo ao nosso trabalho nesse blog. Vou entrar em contato com o pessoal que escreveu aqui no LF e ver se retomamos o nosso trabalho aqui o mais rápido possivel. Obrigado a todos por nos dar essa grande força e até breve! =)

  8. Suelen disse:

    A-d-o-r-e-i este blog!
    Informativo e entretenedor.
    Muito bom!
    Sue