Arquivo de dezembro de 2006

RESSURREIÇÃO

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006



Medroso, inseguro, desconfiado. Essas são apenas alguns defeitos do coração do Dr. Félix. Homem que na sua mocidade suspirava por coisas fugitivas, hoje era um homem de trinta e seis anos, vadio e desambicioso. Se tornara assim depois que fôra lembrado por Deus com uma herança inesperada, tirando-o assim da pobreza.
Dr. Félix era o tipo de homem que não levava suas paixões a sério. Podemos até mesmo duvidar se chegavam a ser paixões. Ele dizia que um caso de amor só devem durar duas estações; ou então seis meses. O narrador do livro já nos faz esssa demonstração logo no segundo capítulo do livro. Ele indo a casa de Cecília para acabar com o amor que já estava chegando nos seus limites, e que ele achava por certo terminar aquela história. E assim o fez.

O livro logo no começo já nos mostra que rumo pode tomar a a história do coração de Félix. Um homem que provavelmente já tenha sofrido com o amor, e que agora não liga mais para ele. Mas no decorrer da história, e com a intromissão do autor-narrador, ele faz-nos perceber que a história com certeza irá tomar um rumo digamos um pouco diferente. Creio eu que na realidade a história em si não importa tanto, mas o modo como é contada por Machado, sempre meticuloso, ele dá seus ares da graça a todo instante e sempre nos deixando a par de todas as situações. Mas vamos ao que interessa…

Viana, tido por Félix como um parasita de considerações e da amizade, éo tipo de moço que vai atoda parte e conhece a todos, sempre falador e chamando atenção sempre. Viana vai a casa de Félix com um convite mandado pelo coronel para que este compareça ao sarau à noite. Viana conta a Félix que sua irmã Lívia veio morar com ele, tendo em vista que o marido da mesma havia morrido. Lívia viria pra morar com o irmão, mas já pensava em viajar pra Europa.
Os dois se encontram no sarau à noite em casa do coronel. No decorrer da noite, Félix vai se chateando com tudo que está a sua volta e decide ir embora, até que o coronel pede para que Lívia o retenha.
Os dois se conhecem e ficam amigos. Já podemos saber o que irá acontecer. Os dois se apaixonam. Félix o homem do coração de pedra revela em determinado momento do livro:
“Meu coração que aparenta se de marmórenão passa apenas de argila comum”. Aqui podemos ver que ele poderia sim vir a se apaixonar. Mas o seu coração cego pelo medo de perder a mulher, tendo sempre ciúmes que não haviam razões para existir vai malogrando todo o amor que por Lívia lhe era dado.

Quando imaginamos que Lívia o deixará, ela sempre o quer ter de volta. E ele persiste em seus erros, em pensar coisas escabrosas de seu amor, acreditando mais nas pessoas que falam coisas dela pra ele, do que nela mesma. Marcam o casamento e este quando está por acontecer, eis que Félix recebe uma carta anônima dizendo que deixe o casamento de lado, e ele o faz. Se não fosse por Meneses, um amigo seu, que por ora fora também apaixonado por Lívia, ele não teria ido ao encontro do seu amor, que encontrava-se adoentada.
Mas, por já ter feito Lívia sofrer tanto, e de tanto pedir perdão e desculpas, e por Lívia sempre o ter perdoado, e por tê-lo amado tanto sempre, eles não ficarão juntos como se poderia de se esperar para alguns leitores. Machado é fascinante, e eu que tinha medo daquela sua barba e daqueles seu olhar, hoje me deparo e digo: Leiamos Machado de Assis.

Serviços: de Assis, Machado.Ressurreição.Editora Formar, SP. 2005.

O VIÉS METAMORFÓSICO DE FRANZ KAFKA

sábado, 9 de dezembro de 2006




A transformação da lagarta – uma criatura rastejante – em borboleta – um ser que ganha os céus em liberdade – é representada alegoricamente pelo mito grego de Psique, cuja história representa a purificação da criatura que após sofrer os mais penosos acintes ganha a imortalidade da alma.

Em A Metamorfose Franz Kafka inverte o significado dessa transformação. O protagonista de seu conto, Gregor Samsa, é um trabalhador explorado que labuta por endividamento, portanto um ser humilhado que certa manhã vê-se metamorfoseado num inseto rastejante e repugnante.

De uma vida mesquinha de caixeiro-viajante, Gregor samsa passa a viver a angústia ante sua própria existência. Rejeitado pela família Samsa leva a vida enclausurado no seu quarto, arrastando-se pelo chão; subindo pelas paredes; escondendo-se dos demais embaixo do sofá; alimentando-se de comidas podres e confundindo-se com o lixo despejado em seu recinto e sempre a espreitar atrás da porta as lamúrias de seus familiares, o que o faz sentir-se culpado por sua nova aparência física, já que seus sentimentos continuam humanos a despeito de todo o resto.

O subjetivismo de A Metamorfose tem aberto espaço para as mais variadas interpretações da obra kafikiana. Essa plurissignificância engloba desde leituras psicanalíticas à marxistas. Porém o que mais chama atenção em A Metamorfose é como Kafka, através do seu protagonista, considera a existência por si só um absurdo.

Bibliografia: Kafka, Franz. A Metamorfose/ Um Artista da Fome/ Carta a meu Pai. São Paulo: Martin Claret, 2002.