Arquivo de novembro de 2006

AUTO DA BARCA DO INFERNO

domingo, 26 de novembro de 2006



Partindo da dicotomia céu e inferno presente no ideário católico do século XVI e que perdura até nossos dias, Gil Vicente sustenta em sua obra O Auto da Barca do Inferno a moral primeva do catolicismo, fazendo críticas a todas as classes sociais, pois na visão do dramaturgo português é preciso resgatar os mais sublimes ideais de simplicidade e honestidade da igreja católica em todos os níveis da sociedade. Trata-se então, stricto sensu, de literatura católica. Mas levemos em consideração o contexto no qual está inserida a visão de mundo vicentina. Na época de Gil Vicente Portugal ainda vivia a ressaca da idade média, daí a crítica ser à reformulação do caráter da igreja.

Depois de mortas, pessoas de diferentes classes sociais, cada uma com características que representam a sua posição na sociedade, se vêem em um “Braço de Mar” onde terão expostas duas barcas, a que leva para o inferno e outra ao paraíso. Aquela conduzida pelo diabo e esta por um anjo. Nestes pequenos barcos, os pecadores serão apontados por seus vícios que praticaram em vida, motivo de regozijo para o arrais do inferno e de desprezo para o arrais do céu.

Além dos dois arrais, há ainda o companheiro do diabo e mais 14 personagens que embarcarão em uma das barcas, com exceção do judeu, o qual não é aceito em nehuma delas. Gil Vicente caracteriza-os com símbolos que representam seus pecados. Por exemplo o fidalgo que traz o pajem e a cadeira significando luxúria; o onzeneiro e o bolsão denotam avareza; dentre outras personagens com seus respectivos símbolos pecaminosos, com exceção do parvo e dos quatro cavaleiros.

Os quatro cavaleiros e o parvo são os únicos que embarcam junto ao arrais do céu. O último por sua ingenuidade. Já os cavaleiros por que lutaram nas cruzadas em nome da igreja católica combatendo os “inféis mouros”. Os quatro cavaleiros encerram a peça com um final apoteótico, elevando o nome da igreja católica.
Mesmo com a denominção de teatro profano, termo que com o tempo adquiriu uma conotação de algo contrário à igreja, (quando na verdade esse nome se deu pelo fato de as peças não serem encenadas no adro da igreja ) O Auto da Barca do Inferno é, sem dúvida, calcado na intenção de reformular a moral católica.E apesar de posta sobre a moralidade do catolicismo, o Auto Vicentino em questão não é de todo moralista. A peça remete o leitor a profundas reflexões acerca de sua própria condição terrena.

Bibliografia: VICENTE, Gil. Farsa de Inês Pereira/ Auto da Barca do Inferno/ Auto da Alma. São Paulo: Martin Claret, 2003.

O TOQUE MÁGICO

quarta-feira, 15 de novembro de 2006




Alan Bulmer é um médico como poucos, daqueles que valorizam o contato físico e realmente se importam com seus pacientes (o que é bastante raro hoje em dia), tendo sempre, como sua maior preocupação a saúde de sua clientela e não os seus bolsos.
A vida profissional de Alan corre normalmente. Paralelamente a sua conturbada vida pessoal, onde seu casamento está em crise, principalmente pelas mudanças sofridas por sua esposa após a perda de seu único filho, e sua forte atração por uma bela viúva, mãe de um de seus pacientes.
A viúva é Sylvia Nash, uma excêntrica e rica mulher, que tem como maiores prazeres chocar a sociedade e cuidar de seu pequeno filho, que sofre de um elevado grau de autismo. Sylvia é a patroa de Ba, misterioso e extremamente fiel vietnamita, antigo amigo de seu finado marido. Charles é o amante de Sylvia, renomado médico e pesquisador de uma grande instituição. Em sua profissão é o oposto de Alan, sempre evitando o contato direto com pacientes e buscando exercer a medicina apenas através de pesquisas. Charles é o típico homem da ciência, cético ao extremo, não crê em nada ou em ninguém que de alguma forma subverta a razão científica. Fechando o círculo, o antagonista da história, o ambicioso Senador McCready, perigoso homem que não medirá esforços para atingir seus inescrupulosos objetivos.
Todos esse profundos personagens se encontram quando Alan passa por uma estranha experiência, recebemndo de um estranho mendigo que o perseguia, um inacreditável poder que pode mudar a vida de cada um deles para sempre. Mas seria esse poder uma dádiva, ou uma terrível e fatal maldição?
“O Toque Mágico” é mais uma magistral obra do mestre F. Paul Wilson (O Fortim, Kuroikase, Renascido), que aprofunda ainda mais seu fantástico universo, em uma incrível jornada vivida pelo virtuoso médico Alan Bulmer e seu toque curador, também chamado de Dat-Tay-Vao.
É uma grande pena não termos como encontrar os livros de Wilson com mais facilidade. Suas melhores obras encontram-se fora de catálogos no Brasil e muitos de seus livros nunca foram nem lançados por aqui. Um grande desrespeito das editoras brasileiras, principalmente a Record que publicou alguns de seus livros. Agora só nos resta contar com a sorte de encontrar essas obras em sebos e rezar para que alguma editora brasileira tenha a boa vontade de nos presentear lançando outros de seus títulos.

Serviço: WILSON, F. Paul. O Toque Mágico. The Touch. Editora Record.