
Na Literatura ocidental contemporânea, geralmente quando se fala em mitologia é referente ao paganismo da cultura greco-romana, e qualquer menção à religião diz respeito à crença cristã. Ambos fenômenos sociais são produtos de uma coletividade que, mesmo apresentando-se como dicotômicos, estão os dois historicamente ligados. O cristianismo nasceu e fortaleceu-se ante a supremacia dos deuses do Olimpo e foi o imperador romano Costantino quem concedeu liberdade religiosa aos cristãos, que por sua vez travestiram os deuses em santos. Imagine então uma mescla indiscriminada de mito e religião produzida não por um coletivo, mas por um único homem. Resultado: O Silmarillion.
J.R.R. Tolkien somou, no que alguns consideram sua obra-prima, não só o politeísmo clássico com o monoteísmo cristão, como também os mitos nórdicos e a crença judaica. O que é o ainunlindalë (um dos capítulos da obra) se não uma nova leitura do Gênesis em que “…Eru, o único…” é se não o Javé dos judeus; Melkor: o Lúcifer de Arda; e ainda o Middler Earth (Terra média), o Midgard dado por Odin aos homens. A origem do cosmos tolkeniano segue com a música dos ainur e o poder dos Valar apresentando-nos uma sensacional mistura de universos num só.
A origem dos elfos e suas vertentes na Terra média, o nascimento dos homens e o surgimento dos anões, bem como a criação dos anéis de poder que vão marcar boa parte da narrativa de O Hobbit e serem a mola propulsora da trilogia O Senhor dos Anéis, estão nas imperceptíveis 460 páginas de O Silmarillion.
Bibliografia:Tolkien, J.R.R.. O Silmarillion. Organizado por Christopher Tolkien; tradução Waldéia Barcellos. São Paulo: Martins Fontes, 1999.