Arquivo de abril de 2006

A PERDIÇÃO DE CAMILO CASTELO BRANCO

domingo, 23 de abril de 2006



A Obra é o Homem. Essa máxima da teoria literária é vista com nitidez na obra do português Camilo Castelo Branco. Homem de vivência desregrada, ultra romântico; obra igualmente ultra-romântica na qual é possível detectar a marca única e inconfundível do autor: seu estilo. Impossível analisar o acervo camiliano sem contextualizá-lo.
Assim é vista a novela Amor de Perdição que narra a história de um casal de adolescentes e seu romance malfadado. Como o mito de Píramo e Tisbe, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque são vizinhos mas suas familias se odeiam devido a uma causa de lítigio vencida por Domingos Botelho, pai de Simão, em detrimento de Tadeu de Albuquerque, pai de Teresa.
O amor exarcebado e “proibido” dos protagonistas de Amor de Perdição foram fortemente influenciados pela experiência de vida de seu autor. A Teresa de Camilo Castelo Branco foi Ana Plácida, mulher casada que do mesmo que o autor português foi presa a mando do marido traído. E é na prisão que Camilo em tempo recorde de quinze dias escreve sua mais conceituada obra.
Para Camilo Castelo Branco a Literatura foi, além do suporte financeiro, seu sustentáculo anímico. Para ele a Literatura é uma necessidade urgente de dar vida a sua existência, por isso em Camilo a Catarse se dá muito mais via escritor-obra do que obra-leitor. O que não diminui em nada sua literariedade, já que como profundo conhecedor da estrutura da Língua Portuguesa Camilo tem uma faculdade de expressão magistralmente ágil e culta, domina os recursos da linguagem produzindo textos dinâmicos e de marcante aceitação. Suas tramas,mesmo previsíveis, prendem a atenção do mais monótono leitor.
Como uma boa obra ultra-romântica o desfecho do autor português foi de igual tragicidade. Devido a sua vida boêmia Camilo contrai sífilis deixando-o cego. Sem conseguir enxergar para escrever, suicida-se com um tiro no ouvido direito no dia primeiro de junho de 1890.

Serviços: Branco, Camilo Castelo. Amor de perdição.Martin Claret:São Paulo, 2001.

A PROFECIA

domingo, 16 de abril de 2006




A Profecia

Profetizado na Bíblia Sagrada, o anticristo já foi tema para muitos filmes e livros. Mas qual livro será que foi o primeiro, o mais original a tratar do assunto de forma ficcional? Em minha opinião só pode ter sido “A Profecia” de David Seltzer (também autor de “A Semente do Diabo”). O livro deu origem ao filme de mesmo nome que foi uma superprodução da Fox com Gregory Peck e Lee Remick nos papéis principais e direção de Richard Donner, sendo que o script foi do próprio David Seltzer. Comparado aos filmes “O Exorcista” e “O bebê de Rosemary”, o filme obteve enorme sucesso de crítica e público e o livro é considerado um dos maiores bestsellers da história editorial americana.

A história gira em torno de uma conspiração para tornar o anticristo, Damien (esse nome me causa arrepios até hoje e o número 666 nunca mais vai ser pra mim apenas um número) em líder mundial. A narrativa é bastante envolvente e entremeada de suspense, emoção e mistério. Já li o livro por duas vezes e em ambas fiquei angustiado, mesmo sabendo do final, tanto do livro quanto do filme. Sem dúvida um clássico do tema terror/suspense que deve ser lido e relido por todos que são fãs do gênero.

Damien - A Profecia II

Dando seqüência ao primeiro livro, aqui vemos Damien já mais crescido mostrando a quê veio. Será que ele consegue? Este livro não foi escrito pelo mesmo autor do primeiro livro, mas por Joseph Howard, mas nem se percebe, pois os elementos do primeiro livro estão presentes e a seqüência da história flui de forma natural. Natural também foi que este livro virasse filme, novamente pela Fox, porém estrelado desta vez por William Holden e Lee Grant com direção de Don Taylor, porém o filme não é assim tão brilhante quanto o primeiro.

O bom mesmo mesmo é ler os dois livros e, se ainda não viu, ver os filmes.

Serviços: Seltzer, David – The Omen - A Profecia – Tradução de A.B. Pinheiros de Lemos - Editora Record – 1976 - 199 páginas

Howard, Joseph – Damien Omen II - Damien Profecia II – Tradução A.B. Pinheiros de Lemos - Editora Record – 167 páginas

Resenhado por Nilson Luis Neumann -
e-mail: nilson@superimec.com.br

MEMNOCH:
AS CRÔNICAS VAMPIRESCAS

segunda-feira, 10 de abril de 2006



O quinto volume das Crônicas Vampirescas de Anne Rice, é com certeza o livro mais denso e polêmico da escritora. “Memnoch, o Demônio”, é o livro que encerra as crônicas de Lestat como protagonista. A partir desse, outros vampiros passam a narrar as histórias.
Abordando o lado mais metafísico e existencial da condição vampiresca, a história trata do enfrentamento de Lestat contra seus demônios interiores, ao mesmo tempo em que é conduzido pelo Demônio Memnoch (segundo ele, o próprio Lúcifer), em uma grande viagem através de planos superiores como o próprio paraíso celestial, chegando até o inferno.
Lestat teria então, a oportunidade d conhecer, através da visão de um demônio ou espírito, todos os principais acontecimentos bíblicos, como a gênese, a queda de Lúcifer e a vinda de Deus a terra, através do corpo mortal de Jesus Cristo.
As dúvidas do leitor, somam-se as de Lestat a cada página do livro. Que disputa é essa, que envolve Deus e o Diabo e qual o papel da humanidade nesse embate? E por que o vampiro Lestat seria tão importante e tão disputado por ambas as forças? Seríamos, realmente, apenas meros piões dentro de um perverso jogo envolvendo forças que, com certeza, nunca entenderemos? Ou tudo não passaria de diabólicas artimanhas inventadas por Memnoch, para enganar o egocêntrico e infantil Lestat?
Nesse livro, temos o início de uma séria mudança na personalidade do vampiro Lestat, que sofre uma grande transformação espiritual depois dessa aventura, passando a ver no mundo mais do que um simples “jardim selvagem”, onde o ser humano não passa de alimento, dentro de uma cadeia alimentar onde os vampiros ocupam o topo.
Um livro espetacular, mas bastante denso e que requer uma atenção extra para sua leitura.

Serviços: RICE, Anne. Memnoch: As crônicas vampirescas. “Memnoch, the Devil: The Vampire Chronicles”. [Tradução: Waldéa Barcelos]. Rio de Janeiro, Editora Rocco.

MAIS ANNE RICE NO LITERATURA FANTÁSTICA:

ENTREVISTA COM O VAMPIRO…
O VAMPIRO LESTAT…
A RAINHA DOS CONDENADOS…
A HISTÓRIA DO LADRÃO DE CORPOS …

O CORCUNDA DE NOTRE DAME

segunda-feira, 3 de abril de 2006




Victor Hugo, um dos mais representativos autores e poetas da literatura francesa de alcance internacional (igualando-se, ao meu ver, somente a Voltaire) tem em “O Corcunda de Notre Dame”* seu primeiro romance publicado (ano de 1831), o qual se tornou um clássico mundial.
Nessa obra, Victor Hugo nos apresenta algumas das mais contundentes questões (e “milenares”) para humanidade: a dificuldade em conviver - e aceitar - as diferenças (sejam elas quais forem) e as desenfreadas ambições humanas para se conseguir aquilo que se quer. Embora o personagem ‘Quasímodo’ (o corcunda) seja a maior representação da dificuldade para aceitar “alguém ou algo” muito diferente, Victor Hugo nos mostra muitas outras no decorrer dessa leitura (onde – pelo menos nessa obra, especificamente - tal constatação é muito mais pungente no livro, do que em suas adaptações cinematográficas, que, diga-se de passagem, foram muitas, inclusive infantil, embora o escopo da história não o seja).
Na cidade de Paris, meados do século XV, na torre da catedral gótica mais famosa de toda Europa, vive Quasímodo** (que significa “domingo de pascoela”, isto é, “o domingo após a páscoa”), o sineiro da catedral. Um homem de feições deformadas, membros detorcidos, porém sensível às manifestações da beleza em todas as suas nuances. Alguém que sofre (muito) por sua imposta solidão.
Quasímodo é um ser taciturno, que almeja “sair para o mundo”, ainda que este mundo seja o entorno da catedral de Notre Dame, onde se realizam diversas festividades. Ele foi adotado, ainda criança, por Frollo, arcediago*** da catedral de Notre Dame. Um homem que por detrás de seu pseudo-moralismo e seriedade, possui uma personalidade vil, déspota e possessiva (um típico representante da “santa inquisição”). Um homem com plenos poderes sobre a cidade e a sociedade em que vive…alguém que, cobrando eternamente a “bondade de ter adotado Quasímodo (segundo ele, quando até sua própria mãe o rejeitou…será?!) e tendo-o criado na escuridão da torre de notre dame”, faz do corcunda seu escravo, além de (tentar) destruir sua personalidade, igualando-o sempre a um monstro.
Durante uma das festividades nos arredores de notre dame (as quais Quasímodo sempre assiste do alto da torre) ocorre um pequeno distúrbio.Observando as ocorrências, Quasímodo vê uma linda mulher envolvida na confusão…uma beleza, diferente,radiante. Alguém que com sua simples presença, lhe deu coragem… a mulher estava sendo presa, acusada de criminosa, sendo machucada. E Quasímodo, pela PRIMEIRA VEZ, em toda a sua vida, sai da catedral para salvar aquela que, ele descobre depois, chama-se Esmeralda. O povo vê a “criatura” que nunca tinha visto antes…e reage de forma animalesca. Quasímodo consegue, a princípio, salvar Esmeralda…completamente encantado por ela. Esmeralda, por sua vez, se encanta e se ressente pela situação imposta a Quasímodo. Afinal, eles são muito similares: sozinhos e considerados “marginais” pela sociedade (ele pela aparência, e ela por ser cigana, povo altamente repudiado pelo clero da época). Apesar da atitude heróica de Quasímodo, Esmeralda é presa novamente. Na prisão, é torturada por um homem que se sente atraído sexualmente por ela: o arcediago Frollo. Ele a tortura e a machuca, pois em sua “mente doentia”, ela é a representação de satã ao despertar tais sentimentos e desejos num ‘homem santo’ como ele…nesse ínterim, um nobre cavalheiro francês (tido como herói de guerra) chega à cidade. Conhece Quasímodo, se apaixona por Esmeralda e compra uma verdadeira guerra com Frollo, o “todo poderoso” local.
Daí por diante, com uma maestria única, Victor Hugo nos apresenta a uma infinidade de personagens, situações, emoções e sentimentos que nos fazem rir, chorar e nos emocionar. A “queda do herói” (quando Quasímodo conhece a verdadeira “face” de Frollo”), a manipulação pela religião de toda uma sociedade, o preconceito, a luxúria, o ódio e a paixão, permeiam essa grande história, dita fantasiosa (mas que em outros aspectos, ocorre até os dias de hoje). Trágica - sim, de certa forma - mas, acima de tudo, uma bela lição sobre coragem, luta e amor. Um livro, literalmente, fantástico!

*Originalmente a obra chamava-se “Nossa Senhora de Paris” (Notre Dame de Paris)
**Após a publicação do romance de Victor Hugo, “Quasímodo” também possui a semântica de “indivíduo quasimodesco,monstrengo”. NA
***Eclesiástico investido pelo bispo de certos poderes de jurisdição da diocese. Na Igreja medieval, dignatário das sés que secundava o bispo nos ofícios junto com o chantre e o diácono.

Serviços: HUGO, Victor. O Corcunda de Notre Dame.