Arquivo de dezembro de 2005

AS MIL E UMA NOITES

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Ler As Mil e Uma Noites é adentrar no exótico mundo da mais famosa compilação de contos (fantásticos) árabes. Ninguém sabe ao certo quem foi (ou quem foram) o autor das fabulosas histórias contidas no livro. Porém, estima-se que as mesmas tenham sido compostas entre os séculos VIII e XV, sendo compiladas neste último. Algumas pesquisas mostram que os contos mais antigos são de origem indo-iraniana e os mais recentes são populares contos egípcios.Esta é uma belíssima coletânea, preservada pela tradição oral de diversos povos orientais e famosa em todo o mundo. No escopo da maioria dos contos, há sempre uma lição a ser aprendida, uma moral a ser assimilada ou, no mínimo, um conteúdo instigante. No entanto, o grande fascínio das histórias, está na apresentação da riqueza contida na cultura oriental, tão diferente da nossa (nem melhor, nem pior) e tão preservada ainda hoje. Ao lermos as histórias, somos, literalmente, levados para um mundo mágico e repleto de personagens fantásticos.

Alguns dos contos são tão famosos, que ganharam “livros próprios” e produções cinematográficas. Quem não se recorda de “Ali Babá e Os Quarenta Ladrões”, “Simbad, o Marujo” e “Alladin”, que transformaram-se em adaptações de todos os gêneros (ação,infantil,aventura)? Ressalto que, embora essas estejam entre as histórias mais famosas, o livro possui outros contos maravilhosos, agradando a todos os gostos.

Em As Mil e Uma Noites, já em sua parte introdutória, somos apresentados a uma história fascinante, que enseja o relato de todas as outras.

Shariar é o sultão de um poderoso reino. Em virtude da traição de sua esposa, Shariar desposa, a cada noite, uma mulher diferente, que é executada logo no dia seguinte. Certo dia, Sherazade, a filha do Vizir (alto funcionário nos reinos muçulmanos) mesmo diante dos apelos do pai, foi a escolhida do sultão. Aparentemente resignada com seu destino, Sherazade tem um plano em mente…

Na primeira hora em que passa com o “soberano”, através de uma sábia e inteligente estratégia, ela começa a contar uma história interessantíssima e, justamente no ponto mais instigante, ao amanhecer, ela interrompe o relato, finalizando-o só na noite seguinte, começando imediatamente outra história. Extremamente habilidosa nessa arte, Sherazade assim procede durante “mil e uma noites”… e, da mesma forma que o sultão, ficamos fascinados e mais interessados a cada novo conto relatado. Tudo que há de mais fascinante, está presente nos contos de Sherazade.

Caso você ainda não tenha lido essa maravilhosa coletânea, eis uma indicação que vale muito a pena arriscar. Principalmente para os ávidos por leitura…como eu!

Serviços: “As Mil e Uma Noites” – versão de Galland, apresentação de Malba Tahan. Ediouro.

A METÁFORA DA LIBERDADE

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

“Ao verdadeiro Fernão Capelo Gaivota que vive em todos nós”. Richard Bach.

As gaivotas são aves litorâneas que não voam mais de 30 metros de altura, fazendo sempre o mesmo percurso: da areia da praia até a superfície do mar a fim de se alimentarem dos peixes e restos de comida deixados pelos barqueiros. Nenhuma gaivota se interessa em ir além disso, todas têm um único objetivo na vida: comer. Todas, exceto Fernão Capelo Gaivota, que mesmo desencorajado pelos seus pais e banido de seu meio, supera as limitações de sua natureza aviária. O clássico de Richard Bach nos fala de forma metafórica sobre a conquista da liberdade. Pois Fernão Capelo não é uma gaivota vulgar como seus pares, presos às rígidas leis do bando. Fernão cria suas próprias leis e realiza o sonho de atingir vôos inimagináveis aos seus semelhantes. A História de Fernão Capelo Gaivota é a história da descoberta do “eu” que busca ser livre à revelia das velhas convenções sociais. O romance de Bach é uma pequena, porém grandiosa, enciclopédia de frases filosóficas e poéticas que fixam emotivamente na memória. Como o personagem- título, o bom leitor vai compreender o quanto é possível fazermos vôos sem pensarmos em limites numéricos; eternizar o momento; ultrapassar as fronteiras do tempo passado e futuro; vencer os obstáculos impostos pelo espaço. Enfim, ser puramente livre. Esse é o pensamento vivo de Fernão Capelo Gaivota.

Serviços: A História de Fernão Capelo Gaivota. Ed. Nórdica, 1970, Rio de Janeiro.

KEN FOLLET: O BURACO DA AGULHA

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Provavelmente, a grande maioria dos thrilers escritos nos anos 70, tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial. Dentro desses livros, temos na sua quase totalidade, romances que de alguma forma trazem como antagonistas, alemães nazistas. O livro “O Buraco da Agulha” do escritor Ken Follet é um exemplo perfeito do que estou falando.

Escrito em 1978, esse livro tem como pano de fundo, o grande perigo que os aliados correram de ter o rumo do conflito catastroficamente alterado, devido à espionagem no final desse terrível conflito. Inúmeros espiões alemães viviam na Inglaterra, sempre buscando passar informações de todas as estratégias dos aliados. E em o “O Buraco da Agulha”, Follet cria um suspense eletrizante envolvendo o (acho eu) fictício e melhor espião alemão Die Nidel e a invasão dos aliados à Normandia em 1944.

No outro lado, estão um professor de História e um agente do Serviço Secreto Inglês. E fechando o triângulo, uma jovem mulher, que muda-se grávida e com seu marido para uma quase deserta e incomunicável ilha, após um grave acidente de carro que o mutilou.

Seriam os aliados capazes de deter Die Nidel, e impedir que ele passasse informações à Alemanha que mudariam os rumos da guerra? E que informações tão importantes seriam essas? A resposta para essas e mais outras muitas perguntas, você terá apenas lendo o livro.

Leitura altamente recomendada.

Serviços: Follet Ken. O Buraco da Agulha “The Storm Island” [Tradução de Orlando Lemos]. Série Best Quality. Editora Globo.

MAU- OLHADO

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Primeiro romance do grande escritor Peter Straub e o terceiro de sua autoria que tive o prazer de conhecer. Nesse, Straub mais uma vez se utiliza do sobrenatural para contar sua história.

Júlia é a personagem central da trama. Abalada e completamente traumatizada com a recente morte de sua filha Kate, ela se afasta do seu truculento, cativante e aparentemente preigoso marido e compra uma casa em Londres. Logo após sua mudança, coisas estranhas começam a ocorrer na casa, que esconde histórias de grande violência em seu recente passado. Será então que essas mudanças têm algo a ver com a terrível morte da filha de Júlia? Será que a criança pretende se vingar da mãe por não tê-la salvo? Ou será tudo fruto do abalo emocional sofrido por Júlia?

Mau-olhado é um suspense sensacional, que cativa do início ao fim e mostra claramente o porque do Peter Straub ser um dos melhores escritores do gênero.

Serviços: STRAUB, Peter. Mau-Olhado “Julia”. [Tradução de A. Weissenberg]. Editora Record.

A MESA VOADORA

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Há pecado mais delicioso que a gula? Para Luis Fernando Veríssimo, definitivamente não. Mesmo que isso venha agravar o seu colesterol.

Em A mesa voadora a comida não foge à inteligência (e ao estômago) do cronista gaúcho.

São crônicas que vão desde conselhos ao leitor, de como se comportar num buffet,– “É comum o garçom carregar no arroz para poupar o estrogonofe. Ao apresentar seu prato, encare-o e diga, com o olhar: ‘Eu conheço a sua laia, patife. Se me sonegar o estrogonofe, enfiarei a sua cabeça no molho vinagrete até que você morra!”–, passando por críticas à cultura do fast food – “Vivemos nas bordas dessa voracidade ao mesmo tempo ingênua e terrível (…). Somos cada vez mais fascinados e menos críticos diante do grande apetite americano e de um projeto de hegemonia chauvinista e prepotente como sempre, agora camuflado pelos mitos da globalização”— chegando à sua cômica frustração ante “o come e não engorda”—“Ninguém é mais admirado ou invejado do que o come e não engorda (…). É o que come o dobro do que nós comemos e tem a metade da circunferência e ainda se queixa:

- Não adianta. Não consigo engordar”.

Melhor do que as guloseimas alimentícias, só os textos de A mesa voadora, que são para um guloso leitor tão deliciosos quanto um refinado prato para um ávido gourmet.

Então prepare a mesa, abra o livro e saboreie os “pratos variados” de Luis Fernando Veríssimo.

Serviços: Veríssimo, Luis Fernando. A mesa voadora. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.