ENTREVISTA COM O VAMPIRO

De todos os livros de Horror que li até hoje, esse com certeza tem um lugar bastante especial entre meus preferidos. Não por sua qualidade em si (a própria Anne Rice escreveu livros bem melhores), mas por ser o primeiro de uma série vampiresca espetacular. Na minha opinião Rice remodelou essas curiosas e instigantes criaturas da noite com esse livro. Guardando as suas devidas proporções, o mesmo que Bran Stoker fez com Drácula no século XIX. As “crônicas vampirescas” da autora possuem características únicas, que tornam seus personagens muito mais interessantes e vivos.

Em “Entrevista com o Vampiro”, acompanhamos a primeira entrevista dada por um sugador de sangue de verdade. A narrativa (que é repetida em todos os livros pertencentes as Crônicas) do livro é feita exatamente como uma entrevista, como um relato de vida (ou não vida) de uma criatura fadada ao sofrimento eterno. O nome dessa criatura: Louis.

A partir de seu relato, viajamos até Nova Orleans (Cidade da autora e palco preferido em 90% de suas tramas), ainda no século XVIII. Louis é um fazendeiro, que após passar por uma série de sofrimentos, se entrega ao alcoolismo e entra em um rápido processo de autodestruição. É aí que ele encontra Lestat, perversa criatura que manifesta em sua personalidade todo o desprezo imaginado em relação à vida mortal. Para ele, os seres humanos não passam de alimento. Louis e Lestat se envolvem em uma trágica história de amor e ódio, onde o desprezo, o ódio, a amizade e a dependência andam juntas em todos os momentos. A história nos leva dos EUA, até o velho continente, nos apresentando mais uma série de personagens que posteriormente receberam mais destaque em outros livros. Claudia e Armand são personagens fascinantemente trágicos. Todos amam Louis e ele também os ama, mas ao mesmo tempo os odeia profundamente e sua condição é a principal responsável por isso. A vida de vampiro não é tão interessante como muitos pensam e a destruição final é muito mais fácil do que imaginam. É com isso que o personagem principal tem que conviver, com a raiva por ter sido transformado e a tentativa de negação de sua nova natureza. Louis é de longe o personagem mais humano, e por isso o que mais sofre, dos muitos criados pela autora. E todo esse sofrimento chega a nos comover durante a leitura do livro, o que nos faz pensar e valorizar ainda mais a vida e sua fragilidade e algo banal para todos nós como assistir o nascer do sol e caminhar durante o dia.

Muitos comentam o forte homoherotismo das obras de Rice, sendo esse um dos principais motivos para o estranhamento de sua obra. Eu, depois de já ter lido quase todos os seus livros, faço outra leitura a esse respeito. Acredito que os vampiros são criaturas assexuadas, mas ao mesmo tempo apaixonadas, mas falo isso em um sentido mais metafísico, onde o corpo não é importante e sim o próprio ser. Portanto, nem todos os vampiros são homossexuais, são criaturas amantes da vida e da personalidade do ser humano, que se apaixonam por homens e mulheres e isso fica claro em muitas passagens, em quase todos os livros de Anne Rice.

Portanto, se você gosta de um bom romance de horror gótico, com personagens muito bem construídos e apaixonantes, comece por esse, pois ele é o início de tudo. Mas por favor, cuidado. E não se sinta satisfeito e contemplado pelo filme de Neil Jordan, com Tom Cruise (Lestat) e Brad Pitt (Louis), pois apesar de ser muito bom e fiel a obra, não chega aos pés do romance.

Serviços: RICE, Anne. Entrevista com o Vampiro. Tradução de Clarice Linspector. Editora Rocco.

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