Arquivo de dezembro de 2005

ALIENISTA OU ALIENADO?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005



O conto O Alienista de Machado de Assis narra em terceira pessoa um episódio da história da cidade de Itaguaí, onde o protagonista que dá nome ao conto, Simão Bacamarte, debruça-se sobre os estudos da loucura humana.
O médico de loucos vai observando ao longo do tempo e em toda Itaguaí o comportamento dos seus moradores, declarando-os um a um como dementes. Machado trata nesse conto da condição humana sob a ótica da loucura, refletindo o que seja a razão e a alienação humana.
O próprio título do conto em um segmento do texto está confrontado com um termo morfologicamente semelhante mas semanticamente distinto, formando desse modo a dicotomia alienista-alienado. Observa-se aí a intenção em questionar os conceitos destas duas palavras. Seguindo essa linha de raciocínio notemos na esfericidade das personagens a ambigüidade humana, como negar a atual condição ou posição por uma questão de sobrevivência, assumindo posturas que lhes convém em dado momento. É o caso do boticário Crispim Soares que mesmo sendo íntimo de Simão Bacamarte resolve passar para o lado do barbeiro Porfírio, por medo de ser acusado de cúmplice do alienista. Assim o é também este barbeiro que estando legalmente a frente da vila adquire uma postura diferente da que o levou a tal posto.
Sobre o conceito de loucura, em certa passagem do conto Simão nos confunde conjecturando que loucos seriam os equilibrados, e o desequilíbrio seria marca da sanidade humana. Há nessa inversão de conceitos uma crítica ao senso comum, que prega a aparente honestidade como marca de bom caráter.
A descrença quanto à retidão humana -comum na obra realista de Machado- é o ponto de partida para o novo método de cura do alienista, provando a infalibilidade humana, pois “cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida, e o efeito era certo”.

Serviços: ASSIS, Machado de. O Alienista. São Paulo: Martin Claret, 2003.

ANJOS E DEMÔNIOS

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005




De cara, uma afirmação já pode ser feita sobre esse livro. É, com certeza, infinitamente superior ao livro de maior sucesso de Dan Brown, O Código Da Vinci. Em Anjos e Demônios, temos a primeira aventura do simbologista de Harvard Robert Langdon.
Langdon é chamado a Suíça, para tentar esclarecer um hediondo assassinato que pode envolver o surgimento de uma das sociedades mais secretas de todos os tempos, os Illuminatti. Sociedade que pregava a excelência do cientificismo e fim do obscurantismo, que tinha como maior divulgador, a Igreja Apostólica Romana.
A trama então, se desloca até a cidade do Vaticano, que já está em fervorosa depois da morte do Papa e devido ao início do Conclave para escolher o seu substituto. A cidade sagrada dos católicos vira alvo dos Illuminatti, e Langdon, juntamente com a filha do cientista assassinado, tem que evitar a morte de cardeais seqüestrados e a total aniquilação da cidade por uma nova e reveladora arma. Para evitar que isso ocorra, Langdon deve decifrar diversos códigos que o levarão até a sede dos Illuminatti, local nunca encontrado por ninguém, a não ser alguns iniciados.
Nesse livro, Dan Brown deixa o sensacionalismo mais de lado (apesar de uma trama que envolva a destruição da Igreja por uma sociedade “satanista”, ser completamente sensacionalista) e se preocupa mais em criar um surpreendente thriller, com personagens excelentes e muito mais consistentes que em seu outro livro aqui citado.
Aliás, não pude deixar de notar, que Brown, pelo menos nesses dois livros, parece seguir uma cartilha. Mais ou menos como uma espécie de fórmula de como se criar uma trama. Numero aqui algumas semelhanças entre as duas histórias protagonizadas por Langdon:

1 – Ambas histórias começam com Langdon sendo chamado para decifrar alguns símbolos encontrados em estranhos e hediondos assassinatos de respeitáveis e idosos senhores;
2 – Ambos os senhores tem parentes muito próximas (neta e filha adotiva), que passam a auxiliar Robert Langdon movidas por um sentimento de vingança e justiça e que acabam sendo de grande ajuda em determinados momentos da história devido aos seus conhecimentos;
3 - Ambos possuem assassinos fanáticos, que dão a carga extra de adrenalina necessária à história;
4 -Uma espécie de mentor intelectual, que pode, ou não, ajudar os protagonistas da história com seus conhecimentos.

Enfim, Anjos e Demônios apesar de não ter nada de novo, possui uma trama sensacional e bastante inteligente (as vezes, BEM exagerada), com um desfecho realmente surpreendente. Além disso, trata-se de um livro muito mais corajoso que “O Código da Vinci”.

Serviços: Brown, Dan. “Anjos e Demônios”. [Tradução de Maria Luiza Newlands da Silveira]. Editora Sextante, 2004.

AS CRÔNICAS DE NÁRNIA
O SOBRINHO DO MAGO
O LEÃO, A FEITICEIRA E O GUARDA ROUPA

sábado, 17 de dezembro de 2005

Mais um clássico da Literatura Fantástica. As Crônicas de Nárnia de C. S. Lewis, parecem ter similar importância à obra do genial J. R. R. Tolkien na Inglaterra em meados do século XX. Mas a semelhança entre esses autores não termina em suas nacionalidades. Ambos, além de ingleses, tem em suas obras máximas, uma forte influência cristã (em Lewis essa influência é bem mais explícita), além da criação de um universo mágico, onde criaturas das mais diversas espécies convivem juntas.

Lewis cria em Nárnia, um lugar perfeito, onde os animais falam e seres mitológicos e reais dividem o mesmo espaço, mantendo uma forte amizade e uma doce harmonia. Mas o que seria Nárnia?

Nárnia é um território de paz, criado pelo sábio Leão Aslam (uma clara alusão ao Deus cristão) depois de um belo canto (o que lembra também a origem da Terra Média de Tolkien, criada após Eru dar vida aos Ainur, que com suas melodias perfeitas realizam a criação, como descrito no magnífico Silmarillion), que deu origem a todas as coisas existentes.

As duas primeiras crônicas (ligadas ao primeiro filme), colocadas nessa ordem (que não é cronológica, já que a primeira aventura escrita em Nárnia foi “O Leão, A Feiticeira e o Guarda Roupa”) por vontade do próprio escritor, mostram essa origem do universo, como a Bruxa branca chegou em Nárnia e como se deu o retorno de Aslam e a guerra contra as hordas da temida bruxa.

Talvez a principal diferença entre Lewis e Tolkien, seja o público alvo ao qual suas obras foram direcionadas. Enquanto as aventuras na Terra Média são direcionadas a um público que está transitando da infância para a idade adulta, essas duas primeiras crônicas de Nárnia são claramente direcionadas às crianças. A quase ausência de violência e a colocação de crianças como personagens centrais da história corroboram isso. Mas isso, com certeza, não impedirá os marmanjos, fãs dessa chamada Literatura Fantástica, de se deliciar com o livro.

Boa leitura e preste atenção ao abrir o seu guarda roupa de agora em diante, pois quem sabe ele pode ter sido construído com algum material mágico e levá-lo a aventuras inimagináveis? Caso isso não ocorra, abre o livro e faça isso da maneira mais fácil.

ROBERT LUDLUM: “A ESTRADA PARA GANDOLFO”

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Esse é o primeiro livro que leio do americano R. Ludlum, autor de livros bastante conceituados, como a trilogia Bourne e o Círculo Matarese. Acho que não poderia começar de forma melhor, já que A Estrada para Gandolfo é um livro extremamente divertido. O mais interessante é que Ludlum partiu de uma idéia séria, onde envolveria grupos satanistas e o seqüestro de um Papa. Em determinado momento ele decidiu pela mudança e trasformou o que seria um grande thriller de suspense em uma inusitada e deliciosa comédia, com personagens hilários e marcantes.

Samuel Devereaux, é um jovem advogado, que após cometer um tremendo erro em uma investigação, acusando um inocente em vez do culpado, pelo simples fato deles serem primos (terem o mesmo nome e ambos serem generais do exército dos Estados Unidos), é obrigado a prestar serviço ao exército por um bom tempo.

MacKenzie Hawkins, o Falcão, é um General na meia idade, herói de guerra duas vezes condecorados e uma lenda viva para os soldados do Tio Sam. O velho Mac seria o oficial perfeito, o homem pelo qual todos os americanos deveriam se espelhar. É, isso poderia até acontecer, se ele não fosse o homem mais cabeça dura, desbocado e louco daquele país. E depois de destruir os órgãos genitais de uma estátua sagrada na China e de mijar na bandeira dos E.U.A, ele é “abandonado” pelo seu governo e preso pelo governo chinês, com previsão de cumprir uma pena de mais de 4.000 anos na Mongólia.

E é nesse ponto que essas distintas figuras se encontram e o pesadelo de Sam, em vez de acabar (ele odeia o exército), apenas começa.

O que faz um homem como o Falcão ser tão amado? Como ele pode ter quatro ex-esposas e todas exibirem uma fidelidade quase sobrenatural para com ele? E como cargas d’água uma pessoa pode ser louca ao ponto de bolar um plano que envolve a criação de uma empresa fantasma com patrocínio dos maiores escroques dos quatro cantos do mundo para financiar o seqüestro de um dos Papas mais queridos da História em troca de um resgate de 400 milhões de dólares (um dólar para cada fiel da Igreja Católica)? Leia o livro que você terá a resposta.

Uma das leituras mais agradáveis e divertidas que fiz nos últimos meses, e já estou grudado em outra aventura envolvendo o General Hawkins e Sam Devereaux.

Serviços: LUDLUM, Robert. A Estrada para Gandolfo (Road to Gandolfo). Nova Fronteira, 1982.

O CORONEL E O LOBISOMEM ou “Os deixados do Oficial Superior da Guarda Nacional, Ponciano de Azeredo Furtado, natural da Praça de São Salvador de Campos de Goitacases”

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

PONCIANO DE AZEREDO FURTADO: Dois metros de

altura, barba ruiva, fortão, voz grossa, invencioneiro e

bondoso. Por vezes, maluco da cabeça e apreciador de rabo-

de-saia.

Confesso que não conhecia o livro até ver o lançamento do filme estrelado por Diogo Vilela, Selton Mello, Pedro Paulo Rangel e Ana Paula Arósio. E apesar de não ido vê-lo, fiquei bastante curioso em ler o livro.

Coronel Ponciano é um personagem extremamente peculiar, reflexo de um período de transição entre uma república baseada nos mandos e desmandos de um pequeno número de pessoas bem relacionadas, munidas de patentes militares e moradoras do interior, e do grande processo de urbanização ocorrido no século XX, que castrou esse retrogrado e datado sistema de relações.

A descrição do próprio personagem principal já nos mostra a preocupação do autor em satirizar esse sistema. Ponciano de Azeredo Furtado, é a matriz de vários personagens que surgiram após o lançamento do livro, como o invencioneiro Pantaleão, criado pelo gênio do meu conterrâneo, Chico Anysio.

Mistura de valentão com froxo, casa nova e quasímodo (não pela beleza, mas pelo sucesso para com as mulheres), experiência no trato com as pessoas e ingenuidade completa no inverso, fazem desse um dos melhores personagens da literatura nacional no século XX.

O autor José Cândido de Carvalho, resume em Ponciano “um personagem que corporifica em seus quase dois metros de inútil valentia o heróico e patético dos últimos senhores rurais da região canavieira do norte fluminense, destronados pelo incoercível processo de urbanização da sociedade brasileira”.

José Cândido também mistura nos discursos de Ponciano, expressões de inspiração militar e jurídica com expressões tiradas de dentro dos currais e das plantações. Um mistura do popular e do acadêmico, gerando todo um “palavreado” novo dentro dessa história.

E o Lobisomem do título, onde se encaixa nisso tudo? No livro ele é apenas mais um dos muitos casos contados e enfrentados pelo Coronel, sem nenhum destaque maior.

O Coronel e o Lobisomem de José Cândido de Carvalho é um livro imperdível para os amantes da nossa excelente literatura.

Serviços: Carvalho, José Cândido. O Coronel e o Lobisomem. Rocco, 2000.