A VILANIA INCONSCIENTE DOS HERÓIS

11 de fevereiro de 2007

Imagine um universo das HQs na qual apenas os vilões existissem? Difícil vislumbrar algo do tipo já que as revistas levam o nome dos heróis. Imagine então o contrário. Se somente os heróis existissem? Tudo seria monótono e portanto sem graça, pois os vilões é que são os responsáveis por colocarem os heróis em ação, e a ação é o cerne do enredo de todo gibi de heróis com superpoderes ou super-habilidades.
Apriori o vilão tem um objetivo predeterminado à existência do herói, este é mais um – e o mais difícil – obstáculo à realização dos planos maléficos daquele. Em alguns casos o seu heroísmo só é realçado na medida em que o vilão fracassa diante de tal combate, fato que acaba por engrandecê-lo diante do senso comum que o adjetiva de herói.


Na minissérie Um conto de Batman - de volta à sanidade em quatro edições no formato americano, a dualidade entre herói e vilão é posta em destaque.
Batman, após enfrentar mais uma armadilha do seu mais demente inimigo, o Coringa, desaparece às vistas por um tempo considerável. Seria então a ocasião propícia para o coringa atacar longe de qualquer importunação. Porém não é o que ocorre, sem o cavaleiro das trevas à espreita o néscio incorrigível volta à sanidade, torna-se um cidadão simples, comum e imperceptível como milhões de pessoas às quais ele passa a conviver pacificamente.
Reaparecendo, o paladino criado por Bob Kane ressurge das, e nas trevas para fazer retornar as trevas, e tudo no universo dos quadrinhos se normaliza, principalmente porque o Coringa “recupera” sua loucura. Aqui é posto em xeque a função do herói. Se Batman tivesse de fato morrido não haveria risco algum à Gotham City, pois a vilania do seu arquirival havia esvaecido juntamente com seu heroísmo. Logo ambos resnacem juntos. Quem é aqui é o vilão da história?
Narrativa semelhante tem o filme Unbreakable (Inquebrável), do diretor e roteirista M. Night Shyamalan, traduzido no Brasil como Corpo fechado. David Dunn (Bruce Willis) é um sujeito trabalhador e pacato em vias de um fracasso matrimonial que numa certa tarde sofre um acidente de trem no qual sobrevive – dentre 131 mortos, num trem com 132 pessoas – sem nenhum arranhão sequer. É nesse momento que Dunn conhece Elijah Price (Samuel L. Jackson), um homem que devido a uma doença de nascença tem os ossos frágeis como vidro. Price é um colecionador de quadrinhos que apresenta a Dunn a seguinte teoria: heróis existem de verdade, a arte seqüencial seria uma retratação exagerada dessa realidade. Ele acredita também que para cada pólo há seu correspondente extremo.

O constante contato entre ambos vira uma amizade que ajuda Dunn a se conhecer mais profundamente: sua natureza; sua história de vida; sua origem heróica; seus poderes e até sua fraqueza. Desse modo o personagem de Willis transformasse efetivamente num herói com direito à notícia estampada em página de jornal. Acontece que graças a seus poderes revelados por incentivo de Elijah, o inquebrável descobre que o acidente do qual escapou plenamente ileso não foi bem um acidente e muito menos um caso isolado, foi antes de tudo uma série de ataques planejados por Price a fim de provar na prática sua teoria. Ora, Price é o sujeito que se quebra como vidro, precisa encontrar seu pólo extremo, alguém inquebrável como aço, mesmo que à custa de centenas de vidas inocentes, pois sem tamanho sacrifício humano o heroísmo de Dunn jamais seria descoberto, isto é, se Price nunca tivesse existido, a heroicidade de Dunn provavelmente não existiria também. Então não haveria herói, mas também nenhum sacrifício humano seria necessário.
Afinal, quem realmente é o vilão da história?

RESSURREIÇÃO

18 de dezembro de 2006



Medroso, inseguro, desconfiado. Essas são apenas alguns defeitos do coração do Dr. Félix. Homem que na sua mocidade suspirava por coisas fugitivas, hoje era um homem de trinta e seis anos, vadio e desambicioso. Se tornara assim depois que fôra lembrado por Deus com uma herança inesperada, tirando-o assim da pobreza.
Dr. Félix era o tipo de homem que não levava suas paixões a sério. Podemos até mesmo duvidar se chegavam a ser paixões. Ele dizia que um caso de amor só devem durar duas estações; ou então seis meses. O narrador do livro já nos faz esssa demonstração logo no segundo capítulo do livro. Ele indo a casa de Cecília para acabar com o amor que já estava chegando nos seus limites, e que ele achava por certo terminar aquela história. E assim o fez.

O livro logo no começo já nos mostra que rumo pode tomar a a história do coração de Félix. Um homem que provavelmente já tenha sofrido com o amor, e que agora não liga mais para ele. Mas no decorrer da história, e com a intromissão do autor-narrador, ele faz-nos perceber que a história com certeza irá tomar um rumo digamos um pouco diferente. Creio eu que na realidade a história em si não importa tanto, mas o modo como é contada por Machado, sempre meticuloso, ele dá seus ares da graça a todo instante e sempre nos deixando a par de todas as situações. Mas vamos ao que interessa…

Viana, tido por Félix como um parasita de considerações e da amizade, éo tipo de moço que vai atoda parte e conhece a todos, sempre falador e chamando atenção sempre. Viana vai a casa de Félix com um convite mandado pelo coronel para que este compareça ao sarau à noite. Viana conta a Félix que sua irmã Lívia veio morar com ele, tendo em vista que o marido da mesma havia morrido. Lívia viria pra morar com o irmão, mas já pensava em viajar pra Europa.
Os dois se encontram no sarau à noite em casa do coronel. No decorrer da noite, Félix vai se chateando com tudo que está a sua volta e decide ir embora, até que o coronel pede para que Lívia o retenha.
Os dois se conhecem e ficam amigos. Já podemos saber o que irá acontecer. Os dois se apaixonam. Félix o homem do coração de pedra revela em determinado momento do livro:
“Meu coração que aparenta se de marmórenão passa apenas de argila comum”. Aqui podemos ver que ele poderia sim vir a se apaixonar. Mas o seu coração cego pelo medo de perder a mulher, tendo sempre ciúmes que não haviam razões para existir vai malogrando todo o amor que por Lívia lhe era dado.

Quando imaginamos que Lívia o deixará, ela sempre o quer ter de volta. E ele persiste em seus erros, em pensar coisas escabrosas de seu amor, acreditando mais nas pessoas que falam coisas dela pra ele, do que nela mesma. Marcam o casamento e este quando está por acontecer, eis que Félix recebe uma carta anônima dizendo que deixe o casamento de lado, e ele o faz. Se não fosse por Meneses, um amigo seu, que por ora fora também apaixonado por Lívia, ele não teria ido ao encontro do seu amor, que encontrava-se adoentada.
Mas, por já ter feito Lívia sofrer tanto, e de tanto pedir perdão e desculpas, e por Lívia sempre o ter perdoado, e por tê-lo amado tanto sempre, eles não ficarão juntos como se poderia de se esperar para alguns leitores. Machado é fascinante, e eu que tinha medo daquela sua barba e daqueles seu olhar, hoje me deparo e digo: Leiamos Machado de Assis.

Serviços: de Assis, Machado.Ressurreição.Editora Formar, SP. 2005.

O VIÉS METAMORFÓSICO DE FRANZ KAFKA

9 de dezembro de 2006




A transformação da lagarta – uma criatura rastejante – em borboleta – um ser que ganha os céus em liberdade – é representada alegoricamente pelo mito grego de Psique, cuja história representa a purificação da criatura que após sofrer os mais penosos acintes ganha a imortalidade da alma.

Em A Metamorfose Franz Kafka inverte o significado dessa transformação. O protagonista de seu conto, Gregor Samsa, é um trabalhador explorado que labuta por endividamento, portanto um ser humilhado que certa manhã vê-se metamorfoseado num inseto rastejante e repugnante.

De uma vida mesquinha de caixeiro-viajante, Gregor samsa passa a viver a angústia ante sua própria existência. Rejeitado pela família Samsa leva a vida enclausurado no seu quarto, arrastando-se pelo chão; subindo pelas paredes; escondendo-se dos demais embaixo do sofá; alimentando-se de comidas podres e confundindo-se com o lixo despejado em seu recinto e sempre a espreitar atrás da porta as lamúrias de seus familiares, o que o faz sentir-se culpado por sua nova aparência física, já que seus sentimentos continuam humanos a despeito de todo o resto.

O subjetivismo de A Metamorfose tem aberto espaço para as mais variadas interpretações da obra kafikiana. Essa plurissignificância engloba desde leituras psicanalíticas à marxistas. Porém o que mais chama atenção em A Metamorfose é como Kafka, através do seu protagonista, considera a existência por si só um absurdo.

Bibliografia: Kafka, Franz. A Metamorfose/ Um Artista da Fome/ Carta a meu Pai. São Paulo: Martin Claret, 2002.

AUTO DA BARCA DO INFERNO

26 de novembro de 2006



Partindo da dicotomia céu e inferno presente no ideário católico do século XVI e que perdura até nossos dias, Gil Vicente sustenta em sua obra O Auto da Barca do Inferno a moral primeva do catolicismo, fazendo críticas a todas as classes sociais, pois na visão do dramaturgo português é preciso resgatar os mais sublimes ideais de simplicidade e honestidade da igreja católica em todos os níveis da sociedade. Trata-se então, stricto sensu, de literatura católica. Mas levemos em consideração o contexto no qual está inserida a visão de mundo vicentina. Na época de Gil Vicente Portugal ainda vivia a ressaca da idade média, daí a crítica ser à reformulação do caráter da igreja.

Depois de mortas, pessoas de diferentes classes sociais, cada uma com características que representam a sua posição na sociedade, se vêem em um “Braço de Mar” onde terão expostas duas barcas, a que leva para o inferno e outra ao paraíso. Aquela conduzida pelo diabo e esta por um anjo. Nestes pequenos barcos, os pecadores serão apontados por seus vícios que praticaram em vida, motivo de regozijo para o arrais do inferno e de desprezo para o arrais do céu.

Além dos dois arrais, há ainda o companheiro do diabo e mais 14 personagens que embarcarão em uma das barcas, com exceção do judeu, o qual não é aceito em nehuma delas. Gil Vicente caracteriza-os com símbolos que representam seus pecados. Por exemplo o fidalgo que traz o pajem e a cadeira significando luxúria; o onzeneiro e o bolsão denotam avareza; dentre outras personagens com seus respectivos símbolos pecaminosos, com exceção do parvo e dos quatro cavaleiros.

Os quatro cavaleiros e o parvo são os únicos que embarcam junto ao arrais do céu. O último por sua ingenuidade. Já os cavaleiros por que lutaram nas cruzadas em nome da igreja católica combatendo os “inféis mouros”. Os quatro cavaleiros encerram a peça com um final apoteótico, elevando o nome da igreja católica.
Mesmo com a denominção de teatro profano, termo que com o tempo adquiriu uma conotação de algo contrário à igreja, (quando na verdade esse nome se deu pelo fato de as peças não serem encenadas no adro da igreja ) O Auto da Barca do Inferno é, sem dúvida, calcado na intenção de reformular a moral católica.E apesar de posta sobre a moralidade do catolicismo, o Auto Vicentino em questão não é de todo moralista. A peça remete o leitor a profundas reflexões acerca de sua própria condição terrena.

Bibliografia: VICENTE, Gil. Farsa de Inês Pereira/ Auto da Barca do Inferno/ Auto da Alma. São Paulo: Martin Claret, 2003.

O TOQUE MÁGICO

15 de novembro de 2006




Alan Bulmer é um médico como poucos, daqueles que valorizam o contato físico e realmente se importam com seus pacientes (o que é bastante raro hoje em dia), tendo sempre, como sua maior preocupação a saúde de sua clientela e não os seus bolsos.
A vida profissional de Alan corre normalmente. Paralelamente a sua conturbada vida pessoal, onde seu casamento está em crise, principalmente pelas mudanças sofridas por sua esposa após a perda de seu único filho, e sua forte atração por uma bela viúva, mãe de um de seus pacientes.
A viúva é Sylvia Nash, uma excêntrica e rica mulher, que tem como maiores prazeres chocar a sociedade e cuidar de seu pequeno filho, que sofre de um elevado grau de autismo. Sylvia é a patroa de Ba, misterioso e extremamente fiel vietnamita, antigo amigo de seu finado marido. Charles é o amante de Sylvia, renomado médico e pesquisador de uma grande instituição. Em sua profissão é o oposto de Alan, sempre evitando o contato direto com pacientes e buscando exercer a medicina apenas através de pesquisas. Charles é o típico homem da ciência, cético ao extremo, não crê em nada ou em ninguém que de alguma forma subverta a razão científica. Fechando o círculo, o antagonista da história, o ambicioso Senador McCready, perigoso homem que não medirá esforços para atingir seus inescrupulosos objetivos.
Todos esse profundos personagens se encontram quando Alan passa por uma estranha experiência, recebemndo de um estranho mendigo que o perseguia, um inacreditável poder que pode mudar a vida de cada um deles para sempre. Mas seria esse poder uma dádiva, ou uma terrível e fatal maldição?
“O Toque Mágico” é mais uma magistral obra do mestre F. Paul Wilson (O Fortim, Kuroikase, Renascido), que aprofunda ainda mais seu fantástico universo, em uma incrível jornada vivida pelo virtuoso médico Alan Bulmer e seu toque curador, também chamado de Dat-Tay-Vao.
É uma grande pena não termos como encontrar os livros de Wilson com mais facilidade. Suas melhores obras encontram-se fora de catálogos no Brasil e muitos de seus livros nunca foram nem lançados por aqui. Um grande desrespeito das editoras brasileiras, principalmente a Record que publicou alguns de seus livros. Agora só nos resta contar com a sorte de encontrar essas obras em sebos e rezar para que alguma editora brasileira tenha a boa vontade de nos presentear lançando outros de seus títulos.

Serviço: WILSON, F. Paul. O Toque Mágico. The Touch. Editora Record.